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Limeira
14/08/2026

“A primeira vez que pensei em suicídio foi quando vendi meu carro para apostar, perdi R$ 14 mil”

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“A primeira vez que pensei em suicídio foi quando vendi meu carro para apostar, perdi R$ 14 mil”

O  vício em jogos de azar voltou à pauta da Comissão de Segurança Pública da Câmara durante um depoimento realizado na reunião desta quinta-feira, 13 de agosto. Adriana Sorg procurou o colegiado para relatar sua experiência com jogos de azar acessados pelo celular. Emocionada, a munícipe contou como o vício começou em uma conversa corriqueira no refeitório da empresa, e os impactos que causou em sua vida, que culminaram em uma tentativa de suicídio no último domingo, 9 de agosto.

O vício em jogos, também conhecido como ludopatia, é um transtorno mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em que a pessoa perde o controle sobre o impulso de jogar. Isso acontece mesmo quando o hábito gera grandes prejuízos financeiros, familiares e emocionais.

Conforme o Ministério da Saúde, em artigo publicado no dia 26 de julho, as apostas online estão cada vez mais presentes no cotidiano da população, principalmente pela facilidade de acesso por meio de celulares e outros dispositivos. O órgão destaca que as plataformas de jogos utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis, que podem estimular a permanência e a repetição das apostas.

Para combater o problema, oferecer acolhimento e tratamento aos apostadores e familiares afetados, o Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, com o objetivo de alertar sobre os riscos e divulgar os serviços de saúde mental oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

No âmbito municipal, a Comissão de Segurança Pública da Câmara também dá início a uma campanha de conscientização sobre o tema. Artes gráficas  e vídeos informativos serão produzidos pela Secretaria de Comunicação da Casa para veiculação nas redes sociais do Legislativo e durante o intervalo das sessões ordinárias e eventos transmitidos pela TV Câmara no canal do Youtube. Além disso, os parlamentares pretendem elaborar um projeto de resolução para instituir a campanha de forma permanente. As deliberações foram registradas em ata.

A provocação para a criação da campanha surgiu a partir de um relato do presidente da Comissão, vereador Costa Junior (Podemos), sobre o caso de um rapaz limeirense que pegou empréstimo junto ao crime organizado para fazer apostas online e, diante da impossibilidade de pagamento, recebeu ameaças contra a família. De acordo com Costa, para que os pais não fossem punidos no lugar dele, o rapaz tirou a própria vida. O parlamentar também relatou outros casos de violência ocorridos na cidade, de pessoas que estão sendo mutiladas por não conseguirem pagar suas dívidas causadas também pelo vício em jogos online, como o do Tigrinho e em Bets (casas de aposta online).

Fazem parte da Comissão de Segurança Pública os vereadores Costa Júnior (Podemos), presidente; Felipe Penedo (PL), vice-presidente, e Carlinhos do Grotta (PL), secretário.

São responsabilidades deste colegiado opinar sobre proposituras relativas à área, bem como promover estudos e reuniões sobre a criminalidade, a violência e a segurança pública, propondo medidas necessárias à melhoria da prevenção e proteção da comunidade; atuar junto às esferas governamentais a fim de implementar políticas de segurança pública no Município; e apresentar sugestões para o aperfeiçoamento da legislação municipal pertinente à segurança pública.

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Depoimento

Adriana Sorg relatou aos vereadores que começou a acessar plataformas de jogos pelo celular após uma conversa corriqueira no refeitório da empresa onde trabalhava. Durante o almoço, colegas de trabalho apresentaram o jogo e falaram sobre valores que ganharam durante o uso do aplicativo. A munícipe disse que se interessou e começou a acessar a plataforma. “Coloquei R$10, ganhei R$50, coloquei mais R$20, ganhei R$100”, afirmou.

De acordo com ela, no começo, para que o usuário se vicie, o aplicativo permite que ele ganhe. “Pra você se viciar, você ganha. Comecei a jogar mais e mais, comecei a perder, comecei a não ter mais vida social, porque o dinheiro que eu tinha queria jogar, não queria gastar saindo”.

Adriana, emocionada, disse que percebeu o problema quando vendeu o carro para jogar. “Vendi meu carro às 6h da tarde por R$14 mil, valia R$20 mil, mas precisava do dinheiro rápido para jogar. Pensei, com R$14 mil vou ganhar R$50 mil, compro outro carro, mas em duas horas perdi tudo, foi a primeira vez que pensei em me matar”.

Ela contou que após o incidente, informou ao dono da empresa sobre o problema que estava enfrentando com os jogos e recebeu ajuda, fez acompanhamento com psiquiatra e psicólogo, mas parou o tratamento e continuou a jogar. “Tudo o que eu tinha eu fui gastando, peguei dinheiro emprestado, usei meu cartão de crédito, comecei a pedir emprestado para amigos. Além do meu rombo, causei o rombo nas finanças de outras pessoas. Eu mentia, dizia que precisava do dinheiro para comprar ração para meu gato. O maior problema é a mentira que você conta para as pessoas”, desabafou.

Em abril deste ano, Adriana disse que foi demitida da empresa em que trabalhava. O dinheiro da rescisão também foi gasto em jogo. Diante do acúmulo de dívidas com instituições financeiras e com amigos, a munícipe disse que recorreu ao pai para conseguir um novo empréstimo. Na sexta-feira, dia 7 de agosto, o pai lhe entregou o dinheiro, de acordo com ela, o pai não sabia do vício. “Meu pai fez um empréstimo de R$7 mil. Pensei, vou jogar, daí consigo pagar os empréstimos. No mesmo dia eu gastei o dinheiro todo”.

Envergonhada, após o pai chamá-la para fazer as compras do mês no domingo, Dia dos Pais, Adriana afirmou que tentou o suicídio. “Como falar para meu pai que eu gastei todo o dinheiro em jogo. Eu resolvi, entrei no quarto, fechei a porta e tomei diversos remédios, comecei a ficar sonolenta, pensei: Chegou o fim. Porque eu achava que eu indo embora acabava, não ia mais ter Adriana para estragar a vida das pessoas”, confessou.

A munícipe narrou que, antes de desfalecer, mandou mensagem para a irmã, dizendo que estava tudo acabado. “Minha irmã e meu irmão foram até em casa e me levaram ao hospital. Deus me deu uma segunda chance, quero usá-la para ajudar outras pessoas”, disse Adriana.

Ela gravou um vídeo para as próprias redes sociais expondo aos amigos e seguidores tudo o que passou por causa do vício nos jogos. Disse que teve vergonha, mas acredita que, a partir do seu relato, outras pessoas poderiam se reconhecer e também procurar ajuda. “Eu fiz o vídeo porque tem muita gente que está na mesma situação, não dá sinais, e precisa de ajuda. Queria ter feito esse vídeo antes, mas é humilhante, sabia que ia receber críticas, mas pensei: eu preciso salvar vidas. Se eu conseguir com tudo isso salvar uma vida, já vai ter valido a pena”.


Fonte: Câmara Municipal de Limeira

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