{"id":900,"date":"2024-04-04T11:14:00","date_gmt":"2024-04-04T14:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/2024\/04\/04\/ditadura-invadiu-terreiros-e-destruiu-pecas-sagradas-do-candomble\/"},"modified":"2024-04-04T11:14:00","modified_gmt":"2024-04-04T14:14:00","slug":"ditadura-invadiu-terreiros-e-destruiu-pecas-sagradas-do-candomble","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/ditadura-invadiu-terreiros-e-destruiu-pecas-sagradas-do-candomble\/","title":{"rendered":"Ditadura invadiu terreiros e destruiu pe\u00e7as sagradas do candombl\u00e9"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Desde crian\u00e7a, a iyalorix\u00e1 M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum ouvia a av\u00f3 Iy\u00e1 Davina, a iyalorix\u00e1 Davina de Omolu, dizendo \u201cnossas coisas est\u00e3o nas m\u00e3os da pol\u00edcia\u201d. Aquelas palavras eram ditas com muita dor. As coisas \u00e0s quais a av\u00f3 se referia eram objetos religiosos, que foram apreendidos pela pol\u00edcia fluminense, entre 1890 e 1946, em batidas realizadas em terreiros de candombl\u00e9 e tamb\u00e9m de umbanda.<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>\u201cUm dia a gente procura ver quais s\u00e3o essas coisas que est\u00e3o nas m\u00e3os da pol\u00edcia, que n\u00e3o s\u00f3 ela\u00a0falava com tanta dor. Acho que na \u00e9poca elas [m\u00e3es de santo] se sentiam impotentes e n\u00e3o sabiam o que fazer. Mas, gra\u00e7as a Deus e aos deuses, de tanto eu ouvir, n\u00f3s tiramos esse Nosso Sagrado que estava nas m\u00e3os da pol\u00edcia\u201d, contou M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>, em entrevista no terreiro Il\u00ea Omolu Oxum, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378402:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/3jsPYou_vKXTT6WIcAoVumGwEJc=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/_dsc6928.jpg?itok=gLeJdfP_\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 28\/03\/2024 \u2013 M\u00e3e Meninazinha de Oxum em seu terreiro, Il\u00ea Omolu Oxum, na Baixada Fluminense. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/3jsPYou_vKXTT6WIcAoVumGwEJc%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/_dsc6928.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 28\/03\/2024 \u2013 M\u00e3e Meninazinha de Oxum em seu terreiro, Il\u00ea Omolu Oxum, na Baixada Fluminense. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378402 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">M\u00e3e Meninazinha d&#8217;Oxum em seu terreiro\u00a0na Baixada Fluminense\u00a0&#8211; <strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=378402--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cEntravam nos terreiros, quebravam o Sagrado. A pol\u00edcia quebrava. Muitas pe\u00e7as estavam na pol\u00edcia como prova de crime, como se a gente professar uma religi\u00e3o fosse crime. N\u00f3s \u00e9ramos criminosos por ser de candombl\u00e9 e por ser de umbanda e outros segmentos da \u00c1frica\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A dor de ter os objetos apreendidos era ainda mais intensificada por saberem que todo o acervo, que na verdade pertencia \u00e0s pessoas de religi\u00f5es de matriz africana, estava no pr\u00e9dio do Museu da Pol\u00edcia, regi\u00e3o central do Rio, onde funcionou o Departamento de Ordem P\u00fablica e Social (Dops), que foi local de repress\u00e3o no per\u00edodo do regime militar.<\/p>\n<p>\u201cA gente faz tudo com muito carinho e ver tudo ser destru\u00eddo de uma hora para outra. \u00c9 a dor no corpo da gente. As pancadas no Sagrado refletem no nosso corpo. Com certeza \u00e9 um desrespeito \u00e0 ancestralidade. A gente n\u00e3o estava fazendo mal a ningu\u00e9m. S\u00f3 queria professar a nossa religi\u00e3o e cultuar os nossos orix\u00e1s. Coisa que n\u00e3o podia. Consideravam que era magia negra\u201d, apontou.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia de local se transformou em uma demanda forte, especialmente de lideran\u00e7as religiosas, o que resultou na campanha Liberte o Nosso Sagrado. M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum foi uma das principais lideran\u00e7as para que \u201cas nossas coisas\u201d sa\u00edssem das m\u00e3os da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u201cPor conta disso, eu comecei a me comunicar com as pessoas. Quase toda pessoa que vinha aqui [no terreiro] e eu tinha oportunidade, a pessoa n\u00e3o tinha nem nada a ver com isso, podia ser at\u00e9 de S\u00e3o Paulo, mas eu falava: &#8216;gente, est\u00e1 acontecendo isso&#8217;.\u201d<\/p>\n<h2>Volta da persegui\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Ainda sem terem o Nosso Sagrado de volta, no per\u00edodo do regime militar, as pessoas de terreiros de candombl\u00e9 e de umbanda ainda tiveram, de novo, que enfrentar outras\u00a0invas\u00f5es e perder seus objetos.<\/p>\n<p>\u201cNos anos 70, muita coisa. Fui a uma reuni\u00e3o uma vez por conta de uma senhora que passou por isso. Que coisa triste. Entraram na casa dela. Entregaram um peda\u00e7o de madeira na m\u00e3o dela para ela mesma quebrar [os objetos sagrados]. Muita humilha\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o tinha alternativa e quebrando e chorando todo o Sagrado que era meu tamb\u00e9m\u201d, revelou M\u00e3e Meninazinha.<\/p>\n<p>Toda a tristeza que passaram no per\u00edodo anterior estava mais uma vez presente. Para fugir da repress\u00e3o, algumas lideran\u00e7as transferiram as sess\u00f5es dos terreiros para locais de florestas onde podiam professar a f\u00e9 sem serem perseguidos por agentes do regime.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cAlguns babalorix\u00e1s e iyalorix\u00e1s iam para o mato para bater o candombl\u00e9 porque dentro de casa n\u00e3o podia. Eram perseguidos e invadiam. Foi muito sacrif\u00edcio para chegarmos at\u00e9 aqui. Levavam os instrumentos e faziam o candombl\u00e9 l\u00e1\u201d, relatou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O primeiro terreiro Il\u00ea Omolu Oxum aberto por M\u00e3e Meninazinha para continuar o caminho da av\u00f3\u00a0foi na localidade de Marambaia, em Nova Igua\u00e7u, na Baixada Fluminense, em 1968. M\u00e3e Meninazinha contou que, apesar de ser em pleno per\u00edodo do regime militar, n\u00e3o teve dificuldade em se instalar no lugar. \u201cEra um lugar muito distante e no mato. N\u00e3o chegaram l\u00e1 para perseguir.\u201d<\/p>\n<p>Apesar disso, um tempo depois, a situa\u00e7\u00e3o mudou. \u201cTivemos uns policiais que foram l\u00e1 e disseram que iam fechar a casa. Que eu tinha que ir \u00e0 delegacia. Botei a m\u00e3o na cabe\u00e7a e fui na delegacia. Quando cheguei l\u00e1, conversei com o delegado e ele disse que eu podia tocar l\u00e1 [a casa]\u201d, lembrou, acrescentando que o delegado quis saber quais eram os policiais que foram ao terreiro &#8220;perturbar esta senhora&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cEssa mulher vai continuar batendo o candombl\u00e9 dela, a macumba dela. N\u00e3o tem que exigir documento. Ela vai continuar\u201d, relatou o que disse o delegado naquele momento, acreditando que a rea\u00e7\u00e3o dele foi resultado de uma ajuda dos orix\u00e1s. \u201cOrix\u00e1 existe e, quando eles querem, querem mesmo.\u201d<\/p>\n<h2>Umbanda<\/h2>\n<p>O historiador, escritor Luiz Ant\u00f4nio Simas\u00a0cresceu dentro de um terreiro de umbanda, onde a av\u00f3 era m\u00e3e de santo e fazia parte de uma rede de casas de santo em Nova Igua\u00e7u, na Baixada Fluminense. A presen\u00e7a da religi\u00e3o no munic\u00edpio era forte. Mesmo sendo um per\u00edodo violento, segundo Simas, os momentos mais dif\u00edceis para a rede de terreiros da regi\u00e3o\u00a0n\u00e3o foram os do regime militar.<\/p>\n<p>&#8220;Do ponto de vista do testemunho da minha fam\u00edlia e dessa linha de terreiros, uma fam\u00edlia inclusive com tend\u00eancia \u00e0 esquerda, os piores momentos n\u00e3o foram os da ditadura militar. A rigor, minha av\u00f3, por exemplo, n\u00e3o tinha nenhuma refer\u00eancia de um aumento da persegui\u00e7\u00e3o em Nova Igua\u00e7u, durante o per\u00edodo da ditadura militar na Baixada Fluminense que concentrava grande n\u00famero de terreiros de umbanda e candombl\u00e9 no Rio de Janeiro\u201d, comentou em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<p>De acordo com o historiador, o \u201cper\u00edodo brabo\u201d para as religi\u00f5es de matriz africana e ind\u00edgena foi outro. \u201cO neg\u00f3cio foi muito pesado na primeira Rep\u00fablica, inclusive quando a pol\u00edcia come\u00e7a a apreender uma s\u00e9rie de objetos que far\u00e3o parte da infame cole\u00e7\u00e3o Magia Negra, que era o nome dado \u00e0 cole\u00e7\u00e3o de objetos sacros apreendidos pela pol\u00edcia\u201d, apontou.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1930, na Era Vargas, conforme indicou Simas, foi muito pesada por causa da Delegacia de Costumes e da legisla\u00e7\u00e3o de proibi\u00e7\u00e3o do culto. Segundo ele, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1990, com o avan\u00e7o de religi\u00f5es pentecostais, surgiu \u201cuma disputa pelo mercado religioso extremamente agressiva e o auge de ataques a terreiros com depreda\u00e7\u00f5es&#8221;. &#8220;Basta dizer que a cidade em que cresci, Nova Igua\u00e7u, que era muito marcada por uma rede de terreiros, sofreu um avan\u00e7o muito impactante de religi\u00f5es pentecostais com relatos absolutamente terr\u00edveis e constantes de casos de invas\u00f5es de terreiros, t\u00edpicos desse per\u00edodo do in\u00edcio do s\u00e9culo 20.\u201d<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=321163:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/SYy81ufGAnfG3LMQr_HQdfOWVBI=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_0027_2.jpg?itok=y1Aj6Kdo\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ) - Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado. Foto: Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" title=\"Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/SYy81ufGAnfG3LMQr_HQdfOWVBI%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_0027_2.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ) - Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado. Foto: Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" title=\"Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=321163 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado &#8211; <strong>Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica<\/strong><!--END copyright=321163--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<h2>Transfer\u00eancia<\/h2>\n<p>Depois de muita luta para recuperar os objetos religiosos, enfim, em mar\u00e7o de 2023, o acervo Nosso Sagrado, composto por 519 pe\u00e7as, deixou o antigo pr\u00e9dio do Dops para ser guardado no Museu da Rep\u00fablica, no Catete, zona sul do Rio.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cTudo que est\u00e1 no Museu da Rep\u00fablica foi, n\u00e3o digo tirado n\u00e3o, digo roubado. A pessoa entra na casa do outro, pega o que n\u00e3o \u00e9 seu. N\u00e3o \u00e9 roubo? \u00c9 roubado sim. Foi tudo para o Museu da Pol\u00edcia porque era crime ser de candombl\u00e9, crime ser da umbanda. Crime\u201d, afirmou a iyalorix\u00e1.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para a M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum, ver a cole\u00e7\u00e3o no Museu da Rep\u00fablica \u00e9 uma conquista para o seu povo. \u201c\u00c9 uma vit\u00f3ria das religi\u00f5es afro-brasileiras. Uma vit\u00f3ria depois de tanto que n\u00f3s passamos. Muita humilha\u00e7\u00e3o, muto abuso, muita agress\u00e3o f\u00edsica. Agora est\u00e1 em lugar de respeito, onde n\u00f3s somos respeitados\u201d, disse lembrando que Pai Proc\u00f3pio de Ogunj\u00e1, da Bahia, pai de santo da av\u00f3 Iy\u00e1 Davina \u201csofreu muito, foi preso, agredido, apanhou da pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>O diretor do Museu da Rep\u00fablica e professor da Escola de Museologia e Departamento de Estudos e Processos Museol\u00f3gicos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), M\u00e1rio Chagas, destacou que outra vit\u00f3ria foi a <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2023-03\/liderancas-lutam-pela-reparacao-de-itens-sagrados-para-o-candomble\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mudan\u00e7a do nome do acervo feita pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan)<\/a>.<\/p>\n<p>\u201cO Iphan aceitou e alterou o nome da cole\u00e7\u00e3o que era uma demanda das lideran\u00e7as que queriam que a cole\u00e7\u00e3o deixasse de ser denominada cole\u00e7\u00e3o Museu da Magia Negra e passasse a ser denominada acervo Nosso Sagrado. O Iphan\u00a0aceitou essa reivindica\u00e7\u00e3o e no dia 21 de mar\u00e7o de 2023 alterou o nome da cole\u00e7\u00e3o e publicou em<em> Di\u00e1rio Oficial<\/em>. Mantemos tamb\u00e9m o nome anterior at\u00e9 para ter um registro de racismo religioso e n\u00e3o apagar essa mem\u00f3ria nefasta, destrutiva, reacion\u00e1ria e persecut\u00f3ria ao Nosso Sagrado\u201d, informou \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=321160:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/0Qzun97pGrqmm5zpgbpOfSpdsEc=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_0015.jpg?itok=aspyrUxN\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ) - Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado. Foto: Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" title=\"Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/0Qzun97pGrqmm5zpgbpOfSpdsEc%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_0015.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ) - Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado. Foto: Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" title=\"Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=321160 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Pe\u00e7as do Acervo Nosso Sagrado &#8211; <strong>Oscar Liberal\/Museu da Rep\u00fablica<\/strong><!--END copyright=321160--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>O diretor destacou que a transfer\u00eancia teve o protagonismo de lideran\u00e7as religiosas. \u201cEssa conquista, se pensarmos em termos de museologia, significa uma repatria\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria p\u00e1tria e \u00e9 uma conquista extraordin\u00e1ria. Talvez seja um dos eventos mais importantes dentro da museologia do Brasil nos \u00faltimos 30 anos\u201d, disse.<\/p>\n<p>O historiador e escritor Luiz Ant\u00f4nio Simas\u00a0tamb\u00e9m considerou muito importante a transfer\u00eancia do Nosso Sagrado para o Museu da Rep\u00fablica. \u201cInclusive do ponto de vista simb\u00f3lico, porque a Rep\u00fablica no Brasil, desde a proclama\u00e7\u00e3o, teve uma perspectiva vigorosamente higienista e eugenista. O projeto republicano desde a d\u00e9cada de 1890 era ancorado numa perspectiva de branqueamento racial no Brasil e era um branqueamento que se estabelecia de duas maneiras: a tentativa de branquear a cor da pele do brasileiro, estimulando a imigra\u00e7\u00e3o europeia, e uma tentativa de promover um branqueamento cultural, apagando, portanto, das refer\u00eancias da forma\u00e7\u00e3o brasileira, os elementos n\u00e3o brancos desse processo. Nesse contexto, as religi\u00f5es afro-ind\u00edgenas foram vigorosamente atacadas\u201d, observou.<\/p>\n<h2>Ind\u00edgenas<\/h2>\n<p>Simas destacou que \u00e9 preciso incluir os ind\u00edgenas na quest\u00e3o dos acervos, porque, segundo ele, parte dessas religi\u00f5es tamb\u00e9m tem influ\u00eancia dos cultos dos povos origin\u00e1rios. \u201cToda a apreens\u00e3o de objetos sagrados, importante dizer que n\u00e3o s\u00f3 de matriz africana, sempre fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer isso, mas afro-ind\u00edgena porque tem muita coisa das umbandas, apreendida ligada a culto de caboclo com raiz ind\u00edgena muito forte. Esse processo todo na verdade \u00e9 sintoma de um branqueamento racial que opera na dimens\u00e3o material e simb\u00f3lica do racismo. Ent\u00e3o, estar no Museu da Rep\u00fablica\u00a0\u00e9 important\u00edssimo, at\u00e9 porque n\u00e3o tem que ser um museu de apologia \u00e0 Rep\u00fablica, mas um museu tem que ter uma perspectiva reflexiva sobre o que foi e o que \u00e9 a Rep\u00fablica brasileira. O Brasil n\u00e3o pode varrer para debaixo do tapete as viol\u00eancias materiais e simb\u00f3licas que formaram no fim das contas o pa\u00eds\u201d, pontuou.<\/p>\n<h2>Mudan\u00e7as<\/h2>\n<p>Apesar de verificar que ainda existe muita intoler\u00e2ncia, M\u00e3e Meninazinha acha que a situa\u00e7\u00e3o melhorou um pouco, o que na vis\u00e3o dela, tamb\u00e9m \u00e9 consequ\u00eancia de muita luta. \u201cDepois dos nossos movimentos, gra\u00e7as a Deus e aos nossos deuses, n\u00f3s hoje j\u00e1 temos uma liberdade para professar nossa religi\u00e3o e tocar nosso candombl\u00e9. A umbanda tocar a sua umbanda. Vamos \u00e0 praia no dia 31 de dezembro para salvar Iemanj\u00e1 e no dia 2 de fevereiro\u201d, comemorou.<\/p>\n<p>\u201cA religi\u00e3o que era aceita era o catolicismo. Candombl\u00e9 e umbanda eram religi\u00e3o dos negros, at\u00e9 n\u00e3o eram consideradas religi\u00e3o e, sim, seita, mas gra\u00e7as a Deus hoje se reconhece o candombl\u00e9 como religi\u00e3o. \u00c9 de negros como eles dizem porque veio da \u00c1frica e a \u00c1frica \u00e9 negra\u201d, completou a iyalorix\u00e1.<\/p>\n<h2>Legado da av\u00f3<\/h2>\n<p>Nascida e criada dentro do candombl\u00e9, que come\u00e7ou com a av\u00f3, a Iy\u00e1 Davina, e seguiu com Mariazinha de Nan\u00e3, a sua m\u00e3e, as duas vindas de Salvador para o Rio. M\u00e3e Meninazinha, ca\u00e7ula de 15 irm\u00e3os fez santo quando tinha 23 anos e j\u00e1 com a fun\u00e7\u00e3o de dar continuidade ao que foi feito pela av\u00f3.<\/p>\n<p>\u201cMinha av\u00f3 fez santo na Bahia, na casa do Pai Proc\u00f3pio de Ogunj\u00e1 em 1910\u201d, contou se referindo \u00e0 origem da sua linhagem no candombl\u00e9.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378397:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/2tXH3rTcEfTPpJ0a-DPzpueT3NI=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/_dsc6827.jpg?itok=GumW1sie\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 28\/03\/2024 \u2013 O terreiro Il\u00ea Omolu Oxum, de M\u00e3e Meninazinha de Oxum, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na baixada fluminense. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/2tXH3rTcEfTPpJ0a-DPzpueT3NI%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/_dsc6827.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 28\/03\/2024 \u2013 O terreiro Il\u00ea Omolu Oxum, de M\u00e3e Meninazinha de Oxum, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na baixada fluminense. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" title=\"Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378397 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Terreiro Il\u00ea Omolu Oxum, de M\u00e3e Meninazinha d&#8217;Oxum, em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense\u00a0&#8211; <strong>Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=378397--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>A iyalorix\u00e1 v\u00ea como miss\u00e3o levar a sua cultura para frente e desmistificar algumas mentiras propagadas sobre o candombl\u00e9 e os orix\u00e1s. \u201cEstou fazendo o meu papel. Fa\u00e7o o meu papel de iyalorix\u00e1, de cuidar daqui, dos meus filhos e da religi\u00e3o fora daqui, deste espa\u00e7o. Tenho que mostrar para o povo, que n\u00e3o deveria ter que mostrar, mas as pessoas t\u00eam que conhecer a religi\u00e3o e saber que a religi\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com dem\u00f4nio. Que Exu n\u00e3o \u00e9 dem\u00f4nio.\u201d<\/p>\n<p>Nem todos da fam\u00edlia seguiam esta religi\u00e3o. Embora n\u00e3o criasse barreiras para a mulher, o pai da iyalorix\u00e1 n\u00e3o era do candombl\u00e9. \u201cO meu pai n\u00e3o gostava. Ele dizia \u2018eu n\u00e3o gosto desse neg\u00f3cio de macumba\u2019, mas ele n\u00e3o impedia de minha m\u00e3e frequentar. N\u00f3s, ainda crian\u00e7as. Ela era iyalorix\u00e1 na casa [terreiro] em Mesquita [Baixada Fluminense]. Ele n\u00e3o se incomodava. Ele n\u00e3o queria para ele. Acho que ele at\u00e9 acreditava, mas n\u00e3o gostava. Ele era de Oxossi&#8221;, lembra\u00a0M\u00e3e Meninazinha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cinco anos do terreiro na Marambaia, em Nova Igua\u00e7u, M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum transferiu a casa para S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, tamb\u00e9m na Baixada Fluminense, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje. \u201cProcuramos um terreno e encontramos esse aqui. Constru\u00edmos aos pouquinhos e estamos aqui\u201d, disse.<\/p>\n<p>Aos 86 anos, M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum disse que hoje n\u00e3o tem o que se queixar. Vive com tranquilidade e se relaciona bem com integrantes de outras religi\u00f5es que vivem pr\u00f3ximos ao terreiro, como um vizinho evang\u00e9lico e de uma casa de umbanda.<\/p>\n<p>\u201cEu sou feliz\u201d, contou.\u00a0\u201cTudo, minha religi\u00e3o, meus amigos, meus filhos, os orix\u00e1s, principalmente os orix\u00e1s. Essa religi\u00e3o para mim \u00e9 maravilhosa. Nasci e me criei dentro do candombl\u00e9. Para mim \u00e9 tudo. Digo que \u00e9 o ar que respiro. \u00c9 \u00e1gua que bebo, a dor que sinto. Tudo isso \u00e9 a minha religi\u00e3o. Tem que ser respeitada e eu luto por isso. N\u00f3s de candombl\u00e9 e umbandistas somos atacados com intoler\u00e2ncia e desrespeito, mas nunca atacamos o outro lado\u201d, concluiu, destacando que tem parentes ligados \u00e0 Igreja Evang\u00e9lica.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-04\/ditadura-invadiu-terreiros-e-destruiu-pecas-sagradas-do-candomble\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde crian\u00e7a, a iyalorix\u00e1 M\u00e3e Meninazinha d\u2019Oxum ouvia a av\u00f3 Iy\u00e1 Davina, a iyalorix\u00e1 Davina de Omolu, dizendo \u201cnossas coisas est\u00e3o nas m\u00e3os da pol\u00edcia\u201d. Aquelas palavras eram ditas com muita dor. As coisas \u00e0s quais a av\u00f3 se referia eram objetos religiosos, que foram apreendidos pela pol\u00edcia fluminense, entre 1890 e 1946, em batidas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":901,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_mbp_banners":[],"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-900","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7Eq1F-ew","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/guialimeira.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/dsc6942.jpg?fit=1600%2C800&ssl=1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}