{"id":603,"date":"2024-03-31T11:39:43","date_gmt":"2024-03-31T14:39:43","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/2024\/03\/31\/uso-de-imoveis-privados-para-tortura-une-civis-e-militares-na-ditadura\/"},"modified":"2024-03-31T11:39:43","modified_gmt":"2024-03-31T14:39:43","slug":"uso-de-imoveis-privados-para-tortura-une-civis-e-militares-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/uso-de-imoveis-privados-para-tortura-une-civis-e-militares-na-ditadura\/","title":{"rendered":"Uso de im\u00f3veis privados para tortura une civis e militares na ditadura"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Uma casa discreta em um bairro residencial, um s\u00edtio usado para churrascos em fim de semana e at\u00e9 uma sala do complexo industrial de uma multinacional, lugares com pouco em comum, al\u00e9m de terem sido usados para tortura e execu\u00e7\u00f5es. Ao longo dos anos, pesquisadores e ativistas t\u00eam lembrado em diversos momentos que a ditadura que comandou o Brasil entre 1964 e 1985 n\u00e3o era apenas militar, mas foi conduzida tamb\u00e9m por tent\u00e1culos civis. Inclusive a violenta repress\u00e3o contra os opositores teve participa\u00e7\u00e3o de agentes sem v\u00ednculo direto com os quart\u00e9is.<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>Essas conex\u00f5es ficam claras na exist\u00eancia de diversos pontos onde eram conduzidos interrogat\u00f3rios e desaparecimentos for\u00e7ados fora de qualquer estrutura militar ou governamental. Apesar de conhecidos, o car\u00e1ter completamente n\u00e3o oficial desses im\u00f3veis em rela\u00e7\u00e3o a estruturas p\u00fablicas deixou poucas evid\u00eancias para que seja poss\u00edvel saber exatamente quantos eram e o que se passou nesses locais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEsses espa\u00e7os clandestinos possibilitaram uma articula\u00e7\u00e3o exatamente para fora das institucionalidades. E isso acho que dava mais margem para organiza\u00e7\u00f5es paralelas atuarem nesses espa\u00e7os. Ao mesmo tempo em que tamb\u00e9m criava la\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil nesses processos\u201d, diz a historiadora e pesquisadora do Memorial da Resist\u00eancia\u00a0Julia Gumieri.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A exist\u00eancia desses locais surge em diversas investiga\u00e7\u00f5es feitas sobre os crimes cometidos pela ditadura ao longo dos anos. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade mapeou a exist\u00eancia de centros\u00a0de tortura em v\u00e1rios estados, como Rio de Janeiro, Par\u00e1 e Minas Gerais.<\/p>\n<p>Na comiss\u00e3o parlamentar de inqu\u00e9rito (CPI) aberta pela C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo em 1990, as investiga\u00e7\u00f5es passaram por um s\u00edtio apontado como local de tortura e execu\u00e7\u00f5es em Parelheiros, extremo sul paulistano.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378343:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/M22KZXdtx6HHm4ZcZ2Emxcq6pdo=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/cem_perus_2_-_marcelo_vigneron_memorial_resistencia_-_000006_f4_baixa.jpg?itok=GKUtmUCt\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. Ossadas de presos pol\u00edticos no Cemit\u00e9rio Dom Bosco, em Perus, S\u00e3o Paulo. Foto: Marcelo Vigneron\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Marcelo Vigneron\/Memorial da Res\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/M22KZXdtx6HHm4ZcZ2Emxcq6pdo%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/cem_perus_2_-_marcelo_vigneron_memorial_resistencia_-_000006_f4_baixa.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. Ossadas de presos pol\u00edticos no Cemit\u00e9rio Dom Bosco, em Perus, S\u00e3o Paulo. Foto: Marcelo Vigneron\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Marcelo Vigneron\/Memorial da Res\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378343 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Ossadas de presos pol\u00edticos no Cemit\u00e9rio Dom Bosco, em Perus, S\u00e3o Paulo\u00a0&#8211; <strong>Marcelo Vigneron\/Memorial da Resist\u00eancia<\/strong><!--END copyright=378343--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>O alvo inicial dos trabalhos da CPI era a vala clandestina no Cemit\u00e9rio Dom Bosco, em Perus, zona norte paulistana, onde foram ocultados os restos mortais de opositores assassinados pela repress\u00e3o. Por\u00e9m, os trabalhos tamb\u00e9m investigaram a exist\u00eancia da Fazenda 31 de Mar\u00e7o, na regi\u00e3o de Marsilac, no extremo sul da capital paulista, pr\u00f3ximo \u00e0\u00a0divisa com Itanha\u00e9m e Embu-Gua\u00e7u.<\/p>\n<h2>Dif\u00edcil identifica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Havia a suspeita de que esse teria sido o lugar para onde o dramaturgo e militante Maur\u00edcio Segall, filho do pintor Lasar Segall, foi levado ao ser sequestrado pelo regime. Ao depor na C\u00e2mara Municipal, Segall n\u00e3o reconheceu o local pelas fotos apresentadas pelos vereadores.<\/p>\n<p>\u201cEstou olhando isto aqui e diria que n\u00e3o \u00e9 a casa onde estive. Por duas raz\u00f5es: a primeira \u00e9 que, mesmo vendado \u2013\u00a0isso me lembro perfeitamente \u2013\u00a0eu desci uma escadinha de onde o carro estava\u00a0parado para chegar \u00e0 entrada da casa. Isso me lembro na ida e na volta. Eu ia meio amparado, porque estava vendado. E aqui, me parece pelo menos,\u00a0n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de ter escada, n\u00e3o tem nada\u201d, respondeu ao ver as fotos do local na investiga\u00e7\u00e3o feita pelos vereadores em 1990, puxando da mem\u00f3ria o que havia passado em 1970.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378347:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/z7ejYppx4KIjBK6FZxocwaCPfwE=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/ivanseixas._foto_memorial.jpg?itok=M2QofUD-\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - Ivan Seixas. Foto: Arquivo Pessoal\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Arquivo Pessoal\/Memorial da Resi\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/z7ejYppx4KIjBK6FZxocwaCPfwE%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/ivanseixas._foto_memorial.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - Ivan Seixas. Foto: Arquivo Pessoal\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Arquivo Pessoal\/Memorial da Resi\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378347 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Escritor e ex-preso pol\u00edtico Ivan Seixas foi coordenador da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade de S\u00e3o Paulo\u00a0\u00a0&#8211; <strong>Arquivo Pessoal\/Memorial da Resist\u00eancia<\/strong><!--END copyright=378347--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>A fazenda era de propriedade do empres\u00e1rio Joaquim Rodrigues Fagundes, que morreu antes de ser ouvido pela CPI. O escritor e ex-preso pol\u00edtico Ivan Seixas disse que o filho de um dos militares que frequentavam o s\u00edtio contou que o local tamb\u00e9m servia de ponto de confraterniza\u00e7\u00e3o para os agentes da repress\u00e3o. \u201cTinha o filho de um milico, do capit\u00e3o Enio Pimentel Silveira, que era funcion\u00e1rio da prefeitura. A gente pediu e ele concordou em ir [at\u00e9 a Fazenda 31 de Mar\u00e7o], porque ele ia l\u00e1 para churrascos. O pai dele e o [delegado S\u00e9rgio] Fleury faziam churrascos e levavam os filhos\u201d, disse em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>. Seixas foi coordenador da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade de S\u00e3o Paulo e assessor especial da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que Segall n\u00e3o tenha reconhecido o local porque a equipe do delegado S\u00e9rgio Fleury o levou para outro s\u00edtio, em Aruj\u00e1, na Grande S\u00e3o Paulo, a norte da capital. Diversos depoimentos relatam que o delegado, um dos mais conhecidos torturadores da ditadura, tinha a sua disposi\u00e7\u00e3o uma ch\u00e1cara, que nunca teve localiza\u00e7\u00e3o exata identificada.<\/p>\n<p>Durante o tempo que esteve preso nesse s\u00edtio, Segall presenciou a morte de Joaquim Ferreira C\u00e2mara, conhecido pelo codinome de Toledo, um dos l\u00edderes da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN). Segundo relato de outro conhecido agente da repress\u00e3o, Carlos Alberto Augusto, chamado de Carlinhos Metralha, ap\u00f3s ser capturado no Rio de Janeiro e ficar em cativeiro em diversos locais, Eduardo Collen Leite, o Bacuri, tamb\u00e9m teria passado pelo s\u00edtio usado por Fleury em Aruj\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cO s\u00edtio aparentemente tinha dois quartos, uma sala\/cozinha e um banheiro. Os choques el\u00e9tricos aplicados no pau-de-arara eram gerados num aparelho, acionado por manivela manual\u201d, contou Segall em depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos. Tamb\u00e9m estavam presos no local Viriato Xavier de Mello Filho e Maria de Lourdes Rego Melo.<\/p>\n<p>Durante a tortura, o artista viu um homem, que depois identificou como sendo Joaquim C\u00e2mara, com sintomas de um ataque card\u00edaco. Apesar de ter recebido atendimento m\u00e9dico, o l\u00edder da ALN morreu no local, o que fez com que os demais presos fossem levados de volta para o Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), no centro da capital paulista.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pertencente ao empres\u00e1rio Joaquim Rodrigues Fagundes, dono da transportadora Rimet e da Fazenda 31 de Mar\u00e7o, a chamada Casa da Mooca era utilizada para manter presos durante dias opositores da ditadura. O relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o da Verdade da Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo denuncia que o im\u00f3vel localizado na Rua Fernando Falc\u00e3o, no bairro da Mooca, zona leste paulistana, foi colocado a servi\u00e7o da repress\u00e3o na d\u00e9cada de 1970. Segundo o documento, o local tamb\u00e9m pode ter sido usado como cativeiro para Bacuri.<\/p>\n<h2>Lugares ainda n\u00e3o revelados<\/h2>\n<p>Sair vivo de um lugar como esse n\u00e3o era a regra.\u00a0\u201cForam poucos sobreviventes desses espa\u00e7os de modo geral, exatamente porque, como eles n\u00e3o eram parte das estruturas oficiais, o objetivo n\u00e3o era prender. O objetivo era recolher informa\u00e7\u00f5es, torturar e executar, porque voc\u00ea n\u00e3o pode ter sobreviventes, testemunhas desses espa\u00e7os n\u00e3o oficiais\u201d, explica Julia Gumieri.<\/p>\n<p>Sem registros e sem testemunhas, \u00e9 poss\u00edvel, segundo a pesquisadora, que alguns desses locais n\u00e3o tenham sequer sido mencionados nas investiga\u00e7\u00f5es feitas at\u00e9 agora. \u201cImaginando o que se perdeu de documenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o localizada e mesmo de falta de sobrevivente que os pr\u00f3prios colegas de milit\u00e2ncia n\u00e3o souberam, \u00e9 muito prov\u00e1vel que tenha existido muito mais, que seja uma camada ainda pequena que a gente sabe sobre\u201d, acrescenta a historiadora.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378348:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/9KFGdVSbFSMaWnS4i_mD4qG9q6w=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/sitio31_marco._wikipedia_.jpg?itok=LJKntk8e\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - S\u00edtio 31 de Mar\u00e7o, S\u00e3o Paulo. Foto: Wikipedia\" title=\"Wikipedia\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/9KFGdVSbFSMaWnS4i_mD4qG9q6w%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/sitio31_marco._wikipedia_.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - S\u00edtio 31 de Mar\u00e7o, S\u00e3o Paulo. Foto: Wikipedia\" title=\"Wikipedia\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378348 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">\u00a0S\u00edtio 31 de Mar\u00e7o, onde\u00a0teriam sido mortos\u00a0os militantes S\u00f4nia Angel Jones e Ant\u00f4nio Carlos Bicalho Lana &#8211;\u00a0<strong>Wikipedia<\/strong><!--END copyright=378348--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>Na Fazenda 31 de Mar\u00e7o, teriam sido mortos em 1973 os militantes da ALN S\u00f4nia Angel Jones e Ant\u00f4nio Carlos Bicalho Lana. Na CPI de 1990, o ex-deputado Afonso Celso, \u00fanico sobrevivente conhecido do s\u00edtio, contou sobre o que passou l\u00e1. Apesar de vendado, ele se lembrava que atravessou uma linha f\u00e9rrea para chegar ao local. \u201cFui conduzido para um subterr\u00e2neo, ou uma sala subterr\u00e2nea ou coisa assim, porque existiam quatro degraus. Quatro degraus, n\u00e3o, quatro lances de escada, e l\u00e1 imediatamente me despiram e passaram a me torturar\u201d, relatou aos vereadores.<\/p>\n<p>\u201cEu provavelmente desmaiei ou qualquer coisa assim, das sev\u00edcias de que fui v\u00edtima. Depois acordei e vejo que me botaram j\u00e1 num outro tipo de tortura, que n\u00e3o era mais pau-de-arara\u201d, segue a hist\u00f3ria contada por Celso. \u201cMe puseram no que eles chamavam \u2018piscina\u2019, que era uma esp\u00e9cie de po\u00e7o, de fundo cimentado, mas cheio de lodo. Eu pisava no lodo, e ali eles brincavam de afogamento. Me sufocavam, me afogavam\u201d, disse na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378346:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/dMDit5_OgeQPE5uGXaos_5wUSy8=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/fazenda_em_aracariguama-rod_castelo_branco_-_andreia_lago_memorial_resistencia.jpg?itok=7P2ISQu9\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. Fazenda em Ara\u00e7ariguama, na Rodovia Castelo Branco, em S\u00e3o Paulo. Foto: Andr\u00e9ia Lago\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Andr\u00e9ia Lago\/Memorial da Resist\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/dMDit5_OgeQPE5uGXaos_5wUSy8%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/fazenda_em_aracariguama-rod_castelo_branco_-_andreia_lago_memorial_resistencia.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. Fazenda em Ara\u00e7ariguama, na Rodovia Castelo Branco, em S\u00e3o Paulo. Foto: Andr\u00e9ia Lago\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Andr\u00e9ia Lago\/Memorial da Resist\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378346 --><\/div>\n<p><h6 class=\"meta\">Fazenda em Ara\u00e7ariguama, na Rodovia Castelo Branco, usada\u00a0para tortura e execu\u00e7\u00e3o de opositores ao regime &#8211; <strong>Andr\u00e9ia Lago\/Memorial da Resist\u00eancia<\/strong><!--END copyright=378346--><\/h6>\n<\/p>\n<\/div>\n<p>Outros lugares s\u00f3 foram conhecidos por revela\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios agentes da repress\u00e3o, como Marival Chaves Dias do Canto, ex-sargento que atuou no Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi). Mesmo estando dentro de um dos maiores centros de tortura da ditadura, Chaves negou ter participado desse tipo de viol\u00eancia ou opera\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o na rua. Fez revela\u00e7\u00f5es em diversos depoimentos, tanto a CPI da Vala de Perus, como tamb\u00e9m a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Foi o ex-agente da repress\u00e3o que identificou a Boate Querosene, em Itapevi, e o S\u00edtio em Ara\u00e7ariguama como locais usados para tortura e execu\u00e7\u00e3o de opositores ao regime.<\/p>\n<p>Em outros casos ainda existem d\u00favidas e lacunas. At\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe o local onde, em 1978, Robson Luz foi torturado e morto ap\u00f3s ser preso acusado de roubar uma caixa de frutas. O processo relativo ao caso, que \u00e0 \u00e9poca causou indigna\u00e7\u00e3o e levou \u00e0\u00a0forma\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado, s\u00f3 foi desarquivado em 2022.<\/p>\n<p>Ao analisar a documenta\u00e7\u00e3o, a pesquisadora Renata Eleut\u00e9rio, do Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica Guaian\u00e1s, diz que as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de que ele foi preso no 44\u00ba Distrito Policial, de Guaianases, zona leste paulistana. Por\u00e9m, h\u00e1 ind\u00edcios de que ele foi levado para outro local no per\u00edodo em que esteve sob poder dos policiais. \u201cNo processo, em um dos depoimentos, o rapaz indica que ele foi retirado daquela delegacia e levado para outro lugar. E a\u00ed depois foi jogado na delegacia, retirado de l\u00e1 e jogado em qualquer outro canto\u201d, revela a pesquisadora.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 clareza, no entanto, do local onde Luz teria recebido pancadas e choques el\u00e9tricos. Mas existem diversos ind\u00edcios de que alguns agentes da repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m atuavam na execu\u00e7\u00e3o de presos por crimes comuns, como no caso da acusa\u00e7\u00e3o feita contra Luz. \u201cAs estruturas e os executores estavam muito em di\u00e1logo, eventualmente eram at\u00e9 os mesmos, como o Esquadr\u00e3o da Morte [grupo de exterm\u00ednio], que era um grupo de policiais da Pol\u00edcia Civil vinculados ao Dops [Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social]\u201d, exemplifica Julia Gumieri.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-grande_6colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378340:grande_6colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/5EzKeNGhmO8c2BP62e9phMfKLKQ=\/463x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/boate_querosene_-cacalos_garrastazu_memorial_resistencia.jpg?itok=ZOnNPTda\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - Boate Querosene, S\u00e3o Paulo. Foto: Cacalos Garrastazu\/Memorial da Resist\u00eancia\" title=\"Cacalos Garrastazu\/Memorial da R\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/5EzKeNGhmO8c2BP62e9phMfKLKQ%3D\/463x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/28\/boate_querosene_-cacalos_garrastazu_memorial_resistencia.jpg?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"60 ANOS DO GOLPE - DITADURA MILITAR - Uso de im\u00f3veis privados para tortura. - Boate Querosene, S\u00e3o Paulo. 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Mas, se o Fleury \u00e9 um delegado da pol\u00edcia que \u00e9 ativo nos processos de exterm\u00ednio, tortura, e comp\u00f5e o Esquadr\u00e3o da Morte, assim, eventualmente, ele pode usar o mesmo espa\u00e7o\u201d, pondera a pesquisadora.<\/p>\n<p>Essa rede de im\u00f3veis sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o formal com o Estado \u00e9\u00a0um aprofundamento dos procedimentos ilegais e clandestinos que j\u00e1 aconteciam no DOI-Codi e outras instala\u00e7\u00f5es militares. O que s\u00f3 era poss\u00edvel devido \u00e0s diversas formas de apoio de empres\u00e1rios ao regime, com cess\u00e3o de espa\u00e7os, ve\u00edculos, financiamento direto e at\u00e9 vigil\u00e2ncia sobre os pr\u00f3prios empregados. A montadora Volkswagen reconheceu que ajudou a repress\u00e3o a perseguir os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios. O ferramenteiro L\u00facio Bellentani contou que foi torturado dentro do complexo industrial em S\u00e3o Bernardo do Campo. A empresa fez um acordo de repara\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal.<\/p>\n<h2>Doutrina de guerra<\/h2>\n<p>A tortura n\u00e3o era uma novidade para as institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Na ditadura de Get\u00falio Vargas, os opositores tamb\u00e9m eram perseguidos e presos. \u201cDurante os outros per\u00edodos, a repress\u00e3o pol\u00edtica era uma repress\u00e3o feita por \u00f3rg\u00e3os oficiais. Prendia, torturava e soltava\u201d, diz Ivan Seixas. A ditadura instaurada a partir do golpe de 1964, no entanto, incorporou uma vis\u00e3o de guerra contra a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, baseada, em grande parte, nas\u00a0guerras coloniais da Fran\u00e7a na Indochina (Vietn\u00e3) e na Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>\u201cA doutrina da guerra revolucion\u00e1ria, como os franceses chamavam, foi um elemento-chave para preparar a organiza\u00e7\u00e3o e a estrutura\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o brasileiros, que foram calcados\u00a0nos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es franceses durante a Guerra da Arg\u00e9lia [1954 a 1962]\u201d, diz o pesquisador Rodrigo Nabuco de Ara\u00fajo, autor do livro <em>Diplomates en Uniforme<\/em> [<em>Diplomatas de Farda<\/em>], que trata da atua\u00e7\u00e3o dos militares franceses a partir dos servi\u00e7os de diplomacia no Brasil entre 1956 e 1974.<\/p>\n<p>O nome mais conhecido por trazer as <em>expertises<\/em> francesas para o Brasil \u00e9 o general Paul Aussaresses. Antes de morrer, em 2013, o oficial reconheceu ter utilizado a tortura para combater a insurg\u00eancia argelina. \u201cEle disse que torturou, que matou, que formou torturadores, e por isso ele acabou perdendo tudo. Ele perdeu a patente de general, perdeu o sal\u00e1rio de aposentadoria de general. Foi um golpe muito grande que ele levou depois de ter dito tudo o que disse\u201d, contextualiza Ara\u00fajo antes de afirmar que Aussaresses n\u00e3o foi o principal respons\u00e1vel por trazer as estrat\u00e9gias francesas para o Brasil.<\/p>\n<p>\u201cTem um outro que \u00e9 muito mais insidioso do que o que o Aussaresses que \u00e9 o Yves Boulnois\u201d, destaca o pesquisador. Chegando ao Brasil em 1969, o coronel franc\u00eas ajudou, segundo Ara\u00fajo, na estrutura\u00e7\u00e3o do DOI-Codi e esteve presente nas opera\u00e7\u00f5es contra a guerrilha comandada por Carlos Lamarca no Vale do Ribeira. \u201cEle participou da organiza\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o e depois da supervis\u00e3o, da an\u00e1lise dos dados que foram colhidos durante os interrogat\u00f3rios, durante as torturas\u201d, detalha Ara\u00fajo a respeito do papel estrat\u00e9gico de Boulnois.<\/p>\n<p>O coronel chegou ao Brasil em 1969 como adido militar. Em correspond\u00eancia enviada ao ent\u00e3o ministro dos Ex\u00e9rcitos da Fran\u00e7a, Pierre Messmer, Boulnois informava sobre os avan\u00e7os na estrutura\u00e7\u00e3o das for\u00e7as da repress\u00e3o brasileiras. \u201cCom v\u00e1rios meses de treinamento adequado, cada unidade \u00e9, agora, capaz, independente de qual seja a miss\u00e3o espec\u00edfica, de participar de uma opera\u00e7\u00e3o de guerrilha\u201d, escreveu ao superior em correspond\u00eancia acessada por Ara\u00fajo e disponibilizada em seu livro.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\"><!-- scald=378224:cheio_8colunas {\"additionalClasses\":\"\"} --><\/p>\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n            <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/loading_v2.gif?w=696&#038;ssl=1\" data-echo=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/p00pR7vjFXs4nkNS11VqNDjJmQs=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/27\/centros-clandestinos_2.png?itok=0wjPFbCb\" alt=\"arte centros clandestinos ditadura militar\" title=\"Arte\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/><br \/>\n        <img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/imagens.ebc.com.br\/p00pR7vjFXs4nkNS11VqNDjJmQs%3D\/754x0\/smart\/https%3A\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/2024\/03\/27\/centros-clandestinos_2.png?w=696&#038;ssl=1\" alt=\"arte centros clandestinos ditadura militar\" title=\"Arte\/Ag\u00eancia Brasil\" class=\"flex-fill img-cover\"\/>\n    <\/div>\n<p><!-- END scald=378224 --><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h2>Hierarquias paralelas<\/h2>\n<p>A experi\u00eancia francesa de enfrentar guerrilhas em um ambiente urbano, como aconteceu na Arg\u00e9lia, influenciou, segundo o pesquisador, na cria\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, que reprimiu os grupos armados que lutavam contra a ditadura em S\u00e3o Paulo. \u201cOs militares do 2\u00ba Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo se inspiraram amplamente das sess\u00f5es administrativas especiais, que eram organiza\u00e7\u00f5es civis e militares na Guerra da Arg\u00e9lia, para estruturar a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes e transformar essa experi\u00eancia da guerra colonial francesa,\u00a0na Guerra da Arg\u00e9lia, em algo possivelmente utiliz\u00e1vel no Brasil\u201d, explica Ara\u00fajo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSe inspirou nessa centraliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o caso franc\u00eas, dessa reuni\u00e3o de civis e militares em um s\u00f3 comando, e da organiza\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es, o que eles chamavam de hierarquias paralelas. Quer dizer, que voc\u00ea tinha uma rede de comando, uma hierarquia de comando que vem de cima para baixo, mas voc\u00ea tinha uma hierarquia paralela, uma organiza\u00e7\u00e3o e uma estrutura clandestina\u201d, detalha o pesquisador.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As teorias dos militares franceses surgem tamb\u00e9m da tentativa de entender a derrota para as for\u00e7as de liberta\u00e7\u00e3o das antigas col\u00f4nias. \u201cTinha a ver com uma neglig\u00eancia dos militares da dimens\u00e3o pol\u00edtica e psicol\u00f3gica do conflito\u201d, diz a respeito das conclus\u00f5es dos oficiais\u00a0o coordenador do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise em Seguran\u00e7a Internacional e Tecnologias de Monitoramento da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), Ac\u00e1cio Augusto.<\/p>\n<h2>O papel da tortura<\/h2>\n<p>\u201cPara essa teoria, a sociedade est\u00e1 dividida em tr\u00eas grupos\u201d, explica o professor. Esse pensamento estrat\u00e9gico parte, segundo ele, do princ\u00edpio de que h\u00e1 uma minoria ativa, que luta contra a domina\u00e7\u00e3o colonial, no caso das ex-col\u00f4nias francesas, ou contra a ditadura, no caso do Brasil. H\u00e1 os apoiadores dos processos de domina\u00e7\u00e3o e h\u00e1 \u00a0\u201cuma grande maioria, que eles chamam de neutra e pac\u00edfica, e que est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea de ser conquistada pela causa revolucion\u00e1ria, que deve ser disputada pelas for\u00e7as da ordem\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, para al\u00e9m do enfrentamento militar, foi feito, de acordo com Augusto, um esfor\u00e7o para evitar que o conjunto da popula\u00e7\u00e3o simpatizasse ou apoiasse os grupos de resist\u00eancia. Ao mesmo tempo, os grupos de oposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o tratados como inimigos e desumanizados. \u201cA tortura n\u00e3o era um ato de barb\u00e1rie, n\u00e3o era um excesso do regime, era a pr\u00f3pria forma de atua\u00e7\u00e3o do regime, inclusive gerida cientificamente. A ideia da tortura era produzir informa\u00e7\u00e3o\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>O desaparecimento dos torturados, principalmente os que nunca foram registrados em estruturas oficiais do Estado, serve, segundo Ara\u00fajo, a alguns prop\u00f3sitos. Por um lado, evita a responsabiliza\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o p\u00fablica das mortes, enquanto, por outro desestabiliza os opositores do regime.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 uma forma de voc\u00ea criar uma incerteza muito grande em torno do que aconteceu com essa pessoa e dessa forma de criar uma impunidade em torno das pessoas que cometeram esses crimes\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O general franc\u00eas Aussaresses, que ficou conhecido pelos cursos relacionados a tortura que promovia em Manaus, \u00e9 tamb\u00e9m, segundo Ara\u00fajo, protagonista de um evento que ilustra como a viol\u00eancia era instrumentalizada pelos colonialistas. \u201cEle solicitou o est\u00e1dio de futebol da cidade. Ele torturou os presos em frente uns dos outros, depois matou todo mundo. Abriu uma vala comum, jogou todos os corpos ali, jogou cal quente em cima, e em cima disso ele jogou concreto armado. Quer dizer que n\u00e3o tem como saber quem est\u00e1 enterrado ali. Todos desapareceram\u201d, conta o historiador sobre os fatos ocorridos na antiga cidade de Philippeville, atual Skikda, na Arg\u00e9lia.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-03\/uso-de-imoveis-privados-para-tortura-une-civis-e-militares-na-ditadura\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma casa discreta em um bairro residencial, um s\u00edtio usado para churrascos em fim de semana e at\u00e9 uma sala do complexo industrial de uma multinacional, lugares com pouco em comum, al\u00e9m de terem sido usados para tortura e execu\u00e7\u00f5es. Ao longo dos anos, pesquisadores e ativistas t\u00eam lembrado em diversos momentos que a ditadura [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":604,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_mbp_banners":[],"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-603","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p7Eq1F-9J","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/guialimeira.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/casa_de_itapevi._ana_carolina_neira_memorial_resistencia.jpg?fit=1600%2C800&ssl=1","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/603\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}