{"id":50603,"date":"2025-11-30T14:31:12","date_gmt":"2025-11-30T17:31:12","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/pesquisa-identifica-nova-especie-de-inseto-que-ataca-lavouras-de-cana-de-acucar\/"},"modified":"2025-11-30T14:31:12","modified_gmt":"2025-11-30T17:31:12","slug":"pesquisa-identifica-nova-especie-de-inseto-que-ataca-lavouras-de-cana-de-acucar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/pesquisa-identifica-nova-especie-de-inseto-que-ataca-lavouras-de-cana-de-acucar\/","title":{"rendered":"Pesquisa identifica nova esp\u00e9cie de inseto que ataca lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<br \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/adulto-de-Mahanarva-spectabilis-CAPA.jpg?w=696&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p>A cana-de-a\u00e7\u00facar desempenha um papel central na economia nacional, tendo gerado, em 2020, uma receita de cerca de US$ 8,7 bilh\u00f5es em exporta\u00e7\u00f5es. Desde 2010, o Brasil produz cerca de 700 milh\u00f5es de toneladas de cana por ano, destinadas a diversos fins. Somos o maior exportador de a\u00e7\u00facar do mundo, mas a planta tamb\u00e9m \u00e9 amplamente utilizada para a produ\u00e7\u00e3o de etanol e para a gera\u00e7\u00e3o de energia a partir da queima do baga\u00e7o. \u2003<\/p>\n<p>Dada a sua relev\u00e2ncia econ\u00f4mica, \u00e9 natural que os cuidados com as planta\u00e7\u00f5es sejam rigorosos e que qualquer amea\u00e7a seja tratada com preocupa\u00e7\u00e3o. Uma das pragas mais conhecidas \u00e9 a cigarrinha-da-raiz, pequenos insetos de colora\u00e7\u00e3o marrom-avermelhada que se alimentam da seiva da cana e, ao faz\u00ea-lo, transmitem toxinas que causam a queima das folhas e a perda de sacarose. Estima-se que a infesta\u00e7\u00e3o possa causar preju\u00edzos de at\u00e9 36 toneladas por alqueire.<\/p>\n<p>Dentre as esp\u00e9cies identificadas como cigarrinha-da-raiz, a\u00a0<em>Mahanarva fimbriolata<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>Mahanarva spectabilis<\/em>\u00a0s\u00e3o as mais conhecidas por atacar as planta\u00e7\u00f5es. Entretanto, pesquisadores do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da Unesp em Rio Claro e da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUCRS) descreveram uma nova esp\u00e9cie de cigarrinha, que j\u00e1 foi identificada em lavouras de cana-de-a\u00e7\u00facar em todo o pa\u00eds. A descoberta foi publicada no\u00a0<em><a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/41051286\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bulletin of Entomological Research<\/a><\/em>, da Universidade de Cambridge.<\/p>\n<p>Docente do IB e um dos autores do artigo, Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello atua h\u00e1 14 anos em um laborat\u00f3rio do Departamento de Biologia Geral e Aplicada dedicado ao estudo da evolu\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica de insetos. Mello diz que sua especializa\u00e7\u00e3o na investiga\u00e7\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica de insetos fez com que, h\u00e1 dez anos, recebesse o contato de empresas agr\u00edcolas. \u201cAlguns produtores estavam enfrentando dificuldades para controlar a praga por meio de defensivos qu\u00edmicos, por isso pediram nossa ajuda\u201d, diz. \u2003<\/p>\n<p>\u201cOs produtos que eles aplicavam n\u00e3o estavam se mostrando eficazes no combate \u00e0s pragas, e isso gerava problemas. Cogitou-se que talvez os insetos tivessem desenvolvido resist\u00eancia. Por\u00e9m, uma pesquisadora da unidade da Embrapa em Araras formulou a hip\u00f3tese de que talvez se tratasse de uma esp\u00e9cie diferente, e enviou amostras para serem analisadas por um grupo de pesquisadores da PUC-RS que atua na \u00e1rea de taxonomia de insetos\u201d, conta ele. \u2003<\/p>\n<p>A partir dessa suspeita, os grupos de pesquisadores da Unesp e da PUC-RS come\u00e7aram a trabalhar em conjunto por duas vias: a an\u00e1lise morfol\u00f3gica, feita pelos cientistas Andressa Paladini e Gerv\u00e1sio Silva Carvalho, e a an\u00e1lise gen\u00e9tica, conduzida por Mello. Cada equipe estudou as amostras fornecidas pela empresa e reuniu as evid\u00eancias que terminaram por confirmar que se tratava de uma nova esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>As amostras colhidas junto aos produtores rurais foram comparadas com dados da\u00a0<em>M.<\/em>\u00a0<em>fimbriolata<\/em>\u00a0e\u00a0<em>M. spectabilis<\/em>\u00a0para identificar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as gen\u00e9ticas. Gra\u00e7as a um marcador de DNA presente nas mitoc\u00f4ndrias, o docente da Unesp conseguiu fazer a distin\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies. \u201cEm uma das esp\u00e9cies, esse marcador gen\u00e9tico apresenta um padr\u00e3o conhecido que \u00e9 conservado, com pequenas varia\u00e7\u00f5es. No caso de esp\u00e9cies diferentes, o marcador sofre varia\u00e7\u00f5es maiores. Isso nos permite dizer que o indiv\u00edduo pertence a uma ou outra esp\u00e9cie\u201d, diz.<\/p>\n<p>Foram analisados mais de 300 indiv\u00edduos coletados entre 2012 e 2015 nas usinas de cana-de-a\u00e7\u00facar. \u201cDo ponto de vista gen\u00e9tico, havia uma diferen\u00e7a marcante, mas que n\u00e3o era muito grande do ponto de vista quantitativo. Para estabelecer a diferencia\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies de insetos, n\u00e3o h\u00e1 um n\u00famero estabelecido de varia\u00e7\u00f5es do DNA. Isso vai depender do grupo em quest\u00e3o. No caso dos mam\u00edferos, j\u00e1 est\u00e1 bem estabelecido. Insetos, por\u00e9m, s\u00e3o um grupo muito mais diverso, e \u00e9 dif\u00edcil estabelecer os par\u00e2metros\u201d, diz Mello.<\/p>\n<p>Da\u00ed a necessidade de uma an\u00e1lise morfol\u00f3gica complementar para que se constatasse que o que estava diante dos olhos dos pesquisadores era, efetivamente, uma esp\u00e9cie diferente. \u201cNa taxonomia integrativa \u00e9 importante adotar v\u00e1rias linhas de evid\u00eancia. Embora a an\u00e1lise gen\u00e9tica sozinha n\u00e3o assegure 100% de seguran\u00e7a para a avalia\u00e7\u00e3o, a uni\u00e3o com outros dados refor\u00e7a o fato de que se trata de uma nova esp\u00e9cie\u201d, afirma o docente.<\/p>\n<p>Ao analisar a morfologia das amostras, Paladini identificou uma diferen\u00e7a sutil, mas marcante, na genit\u00e1lia dos machos. A nova esp\u00e9cie possui uma parte da genit\u00e1lia bifurcada e pontiaguda, enquanto as outras apresentam um formato quadrangular n\u00e3o bifurcado. Essa caracter\u00edstica inspirou o nome do inseto descoberto:\u00a0<em>Mahanarva diakantha<\/em>, termo que significa \u201cdois espinhos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Novas estrat\u00e9gias de combate \u00e0 praga<\/strong><\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie \u00e9 o primeiro passo para a elabora\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias e produtos de controle adequados. \u201cQuando se trata de escolher o produto para combater alguma praga, \u00e9 poss\u00edvel que as subst\u00e2ncias utilizadas tenham a\u00e7\u00e3o direcionada para uma certa esp\u00e9cie. Mesmo que as esp\u00e9cies sejam pr\u00f3ximas, o produto pode ser eficaz contra uma, mas n\u00e3o contra outra. Aparentemente era isso que estava sendo observado nas usinas\u201d, explica Mello. \u2003<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a descri\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie, a pesquisadora Andressa Paladini revisou cole\u00e7\u00f5es da Universidade Federal do Paran\u00e1, onde atualmente leciona, e identificou registros da d\u00e9cada de 1960 de esp\u00e9cimes de M. diakantha classificados incorretamente como\u00a0<em>M. fimbriolata<\/em>. Os pr\u00f3ximos desafios envolvem compreender fatores biol\u00f3gicos, populacionais, taxas reprodutivas e an\u00e1lise da diversidade gen\u00e9tica da nova esp\u00e9cie em rela\u00e7\u00e3o a outras pragas. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso investigar amostras mais recentes. Aquelas usadas para o estudo datam do per\u00edodo 2012-2015, e o cultivo de cana-de-a\u00e7\u00facar se modificou bastante desde ent\u00e3o. \u2003<\/p>\n<p>Odair Aparecido Fernandes, docente da Faculdade de Ci\u00eancias Agr\u00e1rias e Veterin\u00e1rias da Unesp, c\u00e2mpus de Jaboticabal, e l\u00edder do Centro de Pesquisa em Engenharia \u2013 Fitossanidade em Cana-de-A\u00e7\u00facar (Cepenfito), acredita que a nova cigarrinha n\u00e3o deve representar um risco expressivo \u00e0s lavouras. \u201cEmbora n\u00e3o tenhamos identificado essa cigarrinha anteriormente, as ferramentas de controle biol\u00f3gico t\u00eam sido um sucesso. Ent\u00e3o, quero imaginar que vamos continuar tendo sucesso. Mas pode ser que alguns resultados que n\u00e3o eram satisfat\u00f3rios sejam explicados pelo fato de que se trata de uma nova esp\u00e9cie. Isso precisa ser melhor elucidado\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Atualmente, o m\u00e9todo de combate mais utilizado \u00e9 o controle biol\u00f3gico feito com o fungo\u00a0<em>Metarhizium anisopliae<\/em>. O fungo \u00e9 cultivado em laborat\u00f3rio, geralmente sobre gr\u00e3os de arroz, separado e misturado com \u00e1gua para aplica\u00e7\u00e3o nas planta\u00e7\u00f5es. Por ser um produto seletivo, ataca apenas insetos e n\u00e3o oferece riscos \u00e0 cana ou ao ser humano. \u201cEsse \u00e9 um dos mais expressivos exemplos, em termos mundiais, de aplica\u00e7\u00e3o de controle biol\u00f3gico que apresenta efic\u00e1cia elevada\u201d, afirma Fernandes. \u2003<\/p>\n<p>Mesmo assim, ser\u00e1 necess\u00e1rio conduzir novas pesquisas com o\u00a0<em>M. diakantha<\/em>\u00a0a fim de avaliar o impacto das t\u00e9cnicas para combat\u00ea-lo. Mello passar\u00e1 a integrar o Cepenfito, onde pretende colaborar em estudos de controle de pragas. O pesquisador tamb\u00e9m orienta uma pesquisa de doutorado que pretende realizar a montagem gen\u00f4mica das tr\u00eas esp\u00e9cies de cigarrinha. Essa pesquisa, que abrange as \u00e1reas da ci\u00eancia b\u00e1sica e o estudo de sua evolu\u00e7\u00e3o, tem como inten\u00e7\u00e3o compreender o processo evolutivo de separa\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Pela similaridade entre as esp\u00e9cies, a hip\u00f3tese \u00e9 que a separa\u00e7\u00e3o ocorreu nos \u00faltimos 100 mil anos.<\/p>\n<p>\u201cO sequenciamento do genoma da esp\u00e9cie abre a possibilidade de desenvolvimento de uma agricultura de precis\u00e3o, pois permite enxergarmos as varia\u00e7\u00f5es existentes e estudar como isso afeta o controle de insetos. Assim, \u00e9 poss\u00edvel desenvolver t\u00e9cnicas personalizadas para combater as diferentes pragas\u201d, diz Mello.<\/p>\n<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o com o setor privado<\/strong><\/p>\n<p>Mello diz que os bons resultados alcan\u00e7ados pela pesquisa s\u00f3 foram poss\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o entre os grupos da Unesp, da PUC-RS e do setor privado. \u201cJuntamos um pouco do que cada um sabia para podermos caminhar com precis\u00e3o\u201d, diz. \u201cA universidade deve estar aberta a resolver problemas da sociedade. No nosso caso, conseguimos utilizar a ci\u00eancia b\u00e1sica para colaborar na resolu\u00e7\u00e3o de um problema aplicado.\u201d \u2003<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Cepenfito \u00e9 um exemplo de coopera\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada, financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp) e pelo Grupo S\u00e3o Martinho. O centro desenvolve atualmente 55 projetos na \u00e1rea de sa\u00fade vegetal e manejo de pragas, muitos deles em parceria direta com o setor produtivo e com as ind\u00fastrias sucroalcooleiras.<\/p>\n<p><strong>As principais amea\u00e7as \u00e0 cultura da cana-de-a\u00e7\u00facar<\/strong><\/p>\n<p>Fernandes aponta que a cultura da cana enfrenta hoje duas grandes amea\u00e7as. A primeira \u00e9 a s\u00edndrome do murchamento da cana, causada pela combina\u00e7\u00e3o de fatores abi\u00f3ticos, como seca e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, e bi\u00f3ticos, como fungos e pragas. A doen\u00e7a provoca descolora\u00e7\u00e3o da colmo, perda de ceras e de \u00e1gua, levando ao murchamento da planta e podendo reduzir a safra em at\u00e9 40%. \u2003<\/p>\n<p>A segunda amea\u00e7a \u00e9 o bicudo-da-cana, um besouro que vive no solo, pr\u00f3ximo \u00e0s ra\u00edzes ou dentro do caule, alimentando-se do tecido vegetal, causando perdas de cerca de 25 toneladas por hectare. O inseto tem se espalhado devido ao m\u00e9todo mecanizado de colheita, que mant\u00e9m a palha da cana no solo \u2014 pr\u00e1tica ben\u00e9fica para a conserva\u00e7\u00e3o da umidade, mas que tamb\u00e9m favorece a prolifera\u00e7\u00e3o da praga. \u2003<\/p>\n<p>De acordo com Fernandes, o controle dessas amea\u00e7as ainda \u00e9 um desafio, devido \u00e0 escassez de informa\u00e7\u00f5es. \u201cO Cepenfito tem buscado estreitar o di\u00e1logo com o setor produtivo para desenvolver estrat\u00e9gias de manejo mais eficazes. Os projetos em andamento atendem bem \u00e0s demandas das regi\u00f5es Centro-Sul e Sudeste\u201d, diz.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/pesquisa-identifica-nova-especie-de-inseto-que-ataca-lavouras-de-cana-de-acucar\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cana-de-a\u00e7\u00facar desempenha um papel central na economia nacional, tendo gerado, em 2020, uma receita de cerca de US$ 8,7 bilh\u00f5es em exporta\u00e7\u00f5es. Desde 2010, o Brasil produz cerca de 700 milh\u00f5es de toneladas de cana por ano, destinadas a diversos fins. 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