{"id":49031,"date":"2025-10-29T23:15:55","date_gmt":"2025-10-30T02:15:55","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/linguagem-humana-existe-ha-pelo-menos-135-mil-anos-diz-estudo\/"},"modified":"2025-10-29T23:15:55","modified_gmt":"2025-10-30T02:15:55","slug":"linguagem-humana-existe-ha-pelo-menos-135-mil-anos-diz-estudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/linguagem-humana-existe-ha-pelo-menos-135-mil-anos-diz-estudo\/","title":{"rendered":"Linguagem humana existe h\u00e1 pelo menos 135 mil anos, diz estudo"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<br \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/lingugem-estudo-fapesp.jpg?w=696&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p>A origem da linguagem \u00e9 ainda tema controverso nas ci\u00eancias, com antrop\u00f3logos, bi\u00f3logos evolucionistas, psic\u00f3logos, arque\u00f3logos e linguistas sugerindo hip\u00f3teses variadas sobre o in\u00edcio dessa caracter\u00edstica humana fundamental. Sem evid\u00eancias expl\u00edcitas ou registro, pesquisadores se desdobram para encontrar pistas que, pouco a pouco, pavimentam o caminho para uma resposta mais clara. Uma pesquisa publicada em mar\u00e7o na revista cient\u00edfica\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Frontiers in Psychology<\/a><\/em>\u00a0enriqueceu a discuss\u00e3o, ao concluir que a linguagem \u2013 que n\u00e3o tem o mesmo significado de l\u00edngua falada \u2013 j\u00e1 era uma capacidade humana h\u00e1 pelo menos 135 mil anos. A estimativa anterior ficava em 125 mil anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o depende do pressuposto de que o desenvolvimento da linguagem \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u00fanica e comum a todas as popula\u00e7\u00f5es humanas conhecidas, portanto a presen\u00e7a de linguagem precisaria ser anterior \u00e0 primeira emigra\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0para fora da \u00c1frica, cerca de 120 mil anos atr\u00e1s. Seguindo essa l\u00f3gica, encontrar o momento em que a esp\u00e9cie deixou de ser um grupo \u00fanico e indiviso significa encontrar um marco m\u00ednimo para seu surgimento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o estamos apontando uma data exata, pode ser que a linguagem tenha surgido antes ainda desse momento\u201d, explica a bi\u00f3loga Mercedes Okumura, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IB-USP), uma das autoras do artigo. Para ela, a vantagem de identificar um limite inferior de tempo \u00e9 poder guiar infer\u00eancias futuras.<\/p>\n<p>Muitos linguistas defendem que, com a an\u00e1lise das similaridades entre as l\u00ednguas, \u00e9 poss\u00edvel demonstrar que todas s\u00e3o aparentadas e, possivelmente, descendem de um grupo ancestral na \u00c1frica, cujos representantes modernos seriam os povos Khoisan. Paralelamente, estudos do genoma humano tamb\u00e9m apontam para o ancestral direto desses povos como a prov\u00e1vel linhagem a ter sofrido a primeira diverg\u00eancia, a partir da qual\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0se alastrou a regi\u00f5es geogr\u00e1ficas mais distantes, passando a capacidade lingu\u00edstica para gera\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/tipo-de-dengue-entrou-pelo-caribe\/\" rel=\"noopener\">Linhagem do sorotipo 3 da dengue entrou no Brasil vinda do Caribe e Costa Rica, mostra Butantan<\/a><\/p>\n<p>\u201cO que fizemos foi deixar mais precisa a estimativa para a primeira divis\u00e3o populacional, ao considerar an\u00e1lises que at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s n\u00e3o estavam dispon\u00edveis\u201d, conta Okumura. O trabalho envolveu a compila\u00e7\u00e3o de 15 estudos gen\u00e9ticos publicados nos \u00faltimos 18 anos, incluindo an\u00e1lises de cromossomo Y, DNA mitocondrial e genoma inteiro.<\/p>\n<p>Linguagem n\u00e3o \u00e9 o mesmo que l\u00edngua ou idioma, e n\u00e3o necessariamente teve sempre a ver com comunica\u00e7\u00e3o. Para muitas vertentes cient\u00edficas, a linguagem \u00e9 uma decorr\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o, que de alguma forma modificou o c\u00e9rebro da esp\u00e9cie. \u201cTodo indiv\u00edduo humano nasce com uma capacidade intr\u00ednseca que serve de base para desenvolver o conhecimento lingu\u00edstico e \u00e9, portanto, uma forma de express\u00e3o gen\u00e9tica\u201d, esclarece o linguista Vitor N\u00f3brega, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP, coautor do artigo.<\/p>\n<p>\u201cAs l\u00ednguas, sim, podem ser aprendidas ao longo da vida. Cada uma delas \u00e9 uma poss\u00edvel forma de arranjo que expressa essa base cognitiva comum a todos\u201d, afirma N\u00f3brega, que ressalta que a capacidade lingu\u00edstica pode se manifestar em uma vasta gama de gestos, imagens, sons e combina\u00e7\u00f5es que gerem significado e funcionem como pe\u00e7as da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, talvez n\u00e3o seja a primeira fun\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o surgimento da linguagem se prestou. Evid\u00eancias de express\u00e3o cultural e do chamado \u201cpensamento simb\u00f3lico\u201d come\u00e7am a aparecer nos achados arqueol\u00f3gicos para as popula\u00e7\u00f5es humanas que viveram h\u00e1 cerca de 100 mil anos. Esses registros incluem pinturas rupestres, adornos, resqu\u00edcios de rituais funer\u00e1rios, artesanato ou outros que refletem um comportamento complexo, ancorado em uma forma de processar, chegando a transmitir informa\u00e7\u00f5es por meio de s\u00edmbolos e significados.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 que l\u00ednguas n\u00e3o fossilizam, dependemos tamb\u00e9m de evid\u00eancias indiretas que n\u00e3o est\u00e3o na al\u00e7ada da linguagem\u201d, comenta N\u00f3brega. \u201cNesse caso, podemos olhar para o registro arqueol\u00f3gico desconfiando que a presen\u00e7a de s\u00edmbolos descobertos ali implique alguma express\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 material, mas tamb\u00e9m lingu\u00edstica.\u201d Para ele, \u00e9 sintom\u00e1tico que, (relativamente) n\u00e3o muito ap\u00f3s os 135 mil anos, se observe uma emerg\u00eancia de cultura material com r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo prop\u00f5e que, no intervalo de tempo entre a origem da capacidade e a produ\u00e7\u00e3o de material simb\u00f3lico, a linguagem tenha evolu\u00eddo de uma adapta\u00e7\u00e3o inicialmente apenas cognitiva \u2013 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o de pensamentos e de est\u00edmulos do meio exterior \u2013 para um sistema comunicativo e de socializa\u00e7\u00e3o. A adapta\u00e7\u00e3o mental teria sido o gatilho para o desenvolvimento de fatores de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M<\/strong>: <a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/grupo-cria-mel-sabor-chocolate\/\" rel=\"noopener\">Grupo cria mel \u2018sabor chocolate\u2019 usando casca da am\u00eandoa do cacau<\/a><\/p>\n<p>\u201cSe cultura material \u00e9 prova, ent\u00e3o d\u00e1 para dizer que neandertais [<em>Homo neanderthalensis<\/em>], denisovanos [<em>Homo longi<\/em>] e possivelmente outros homin\u00eddeos tamb\u00e9m tinham desenvolvido linguagem, pois os registros arqueol\u00f3gicos trazem cada vez mais vest\u00edgios de ferramentas l\u00edticas e express\u00f5es art\u00edsticas que essas popula\u00e7\u00f5es produziam, que podem ser associadas a um comportamento mediado por s\u00edmbolos\u201d, comenta para\u00a0<em>Pesquisa FAPESP\u00a0<\/em>a belga Nathalie Gontier, fil\u00f3sofa de teorias evolutivas biol\u00f3gicas e lingu\u00edsticas da Universidade do Porto, em Portugal.<\/p>\n<p>\u201cMas a\u00ed era j\u00e1 linguagem, era uma protolinguagem ou era um sistema de comunica\u00e7\u00e3o primitivo?\u201d Gontier prop\u00f5e a pergunta como central para a aus\u00eancia de consensos da comunidade cient\u00edfica. Ela mesma responde: \u201cTudo depende das defini\u00e7\u00f5es de linguagem de cada disciplina ou linha de pesquisa; portanto, a quest\u00e3o permanece\u201d.<\/p>\n<p>O linguista Fernando Orph\u00e3o de Carvalho, do setor de antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), analisa a hist\u00f3ria das popula\u00e7\u00f5es humanas por interm\u00e9dio de suas l\u00ednguas e concorda que h\u00e1 uma forte depend\u00eancia, para os avan\u00e7os da \u00e1rea, da defini\u00e7\u00e3o de linguagem que se escolhe. \u201cPara cada defini\u00e7\u00e3o de linguagem sendo usada, uma filogenia evolutiva distinta \u00e9 gerada\u201d, diz, referindo-se \u00e0s \u00e1rvores geneal\u00f3gicas criadas a partir de caracter\u00edsticas das esp\u00e9cies consideradas.<\/p>\n<p>Carvalho tamb\u00e9m questiona a necessidade pr\u00e9via da linguagem para que um artefato cultural seja produzido. \u201cSeria importante termos mais estudos que mostrem a vincula\u00e7\u00e3o entre essas duas condi\u00e7\u00f5es\u201d, pondera ele, que indica ainda a necessidade de explorar os mecanismos de aprendizado social da linguagem.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Gontier tem se dedicado a estudos evolutivos que levam em conta a exist\u00eancia de protolinguagem em primatas e outros animais. \u201cPresume-se que protolinguagem seja uma forma intermedi\u00e1ria entre o comportamento de primatas e a linguagem humana, e a forma como eu lido com as discord\u00e2ncias atuais sobre diferen\u00e7as entre linguagem e protolinguagem \u00e9 olhando para o que chamamos de \u2018composicionalidade\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O termo implica que a linguagem \u00e9 composta por um somat\u00f3rio de comportamento associativo (por exemplo, a associa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de gestos entre gorilas que significam \u201cperigo\u201d ou ent\u00e3o \u201cvenha me fazer um cafun\u00e9\u201d) e estrutura, ou ordem hier\u00e1rquica, na qual os significados s\u00e3o posicionados dentro de uma frase ou uma a\u00e7\u00e3o. \u201cO pr\u00f3prio comportamento de caminhar ou comer em uma sequ\u00eancia determinada pode ser reflexo desse ordenamento cognitivo\u201d, afirma Gontier.\u00a0 A linguagem, nessa vis\u00e3o, \u00e9 mais do que comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Frequentemente, estudos com primatas, como o publicado sobre bonobos em abril na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Science<\/em>\u00a0por uma equipe da Universidade de Zurique, na Su\u00ed\u00e7a, destacam esses comportamentos. Os bonobos combinam chamados vocais, equivalentes a palavras, para elaborar novos significados \u2013 uma compet\u00eancia tida como exclusivamente humana at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s. O artigo indica que bonobos poderiam compartilhar com a humanidade uma forma precursora da capacidade de combinar unidades de linguagem, herdada do ancestral comum de ambos h\u00e1 cerca de 7 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata de negar outras formas de comunica\u00e7\u00e3o entre animais, mas h\u00e1 diferen\u00e7a no n\u00edvel de complexidade que observamos na linguagem humana, que \u00e9 fruto de uma estrutura\u00e7\u00e3o mental sofisticada e \u00fanica, com origem biol\u00f3gica\u201d, diz N\u00f3brega, da USP. O linguista explica que, apesar das evid\u00eancias espor\u00e1dicas de atividades simb\u00f3licas de neandertais, \u00e9 apenas na linhagem dos\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0(a partir de 100 mil anos atr\u00e1s) que os registros arqueol\u00f3gicos surgem de forma sistem\u00e1tica, ind\u00edcio de que o comportamento foi exercitado de forma coerente por todas as popula\u00e7\u00f5es da esp\u00e9cie e n\u00e3o apenas algumas.<\/p>\n<p>Gontier conclui que n\u00e3o h\u00e1 muitos consensos sobre como a linguagem evolui. Onde pode haver um consenso \u00e9 que cada vez mais evid\u00eancias mostram o comportamento composicional em outros animais: seria poss\u00edvel, assim, que o pensamento seja ordenado mesmo sem l\u00edngua ou comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/linguagem-humana-existe-ha-pelo-menos-135-mil-anos-diz-estudo\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A origem da linguagem \u00e9 ainda tema controverso nas ci\u00eancias, com antrop\u00f3logos, bi\u00f3logos evolucionistas, psic\u00f3logos, arque\u00f3logos e linguistas sugerindo hip\u00f3teses variadas sobre o in\u00edcio dessa caracter\u00edstica humana fundamental. Sem evid\u00eancias expl\u00edcitas ou registro, pesquisadores se desdobram para encontrar pistas que, pouco a pouco, pavimentam o caminho para uma resposta mais clara. 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