{"id":43142,"date":"2025-08-31T14:06:13","date_gmt":"2025-08-31T17:06:13","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/especialistas-discutem-impacto-da-ia-na-producao-literaria\/"},"modified":"2025-08-31T14:06:13","modified_gmt":"2025-08-31T17:06:13","slug":"especialistas-discutem-impacto-da-ia-na-producao-literaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/especialistas-discutem-impacto-da-ia-na-producao-literaria\/","title":{"rendered":"Especialistas discutem impacto da IA na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<br \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Bibliotecas-4-scaled.jpg?w=696&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p>No m\u00eas passado, o cancelamento de um concurso liter\u00e1rio revelou os primeiros impactos que a intelig\u00eancia artificial (IA) vem causando na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e no mercado editorial brasileiro. S\u00e3o os primeiros sinais de um tempo de incertezas e expectativas. Segundo a editora, das 900 obras recebidas, 40 apresentaram sinais \u00f3bvios do uso de IA, enquanto 60 mostraram fortes ind\u00edcios de intelig\u00eancia artificial em sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0Jornal da USP\u00a0procurou professores e especialistas nas \u00e1reas da tecnologia, da literatura e da editora\u00e7\u00e3o para ouvir o que pensam das possibilidades, problemas e incertezas trazidos pelos algoritmos. O cen\u00e1rio \u00e9 repleto de d\u00favidas, e a cautela vem sendo adotada como principal procedimento. <\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong> <strong><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/novo-centro-de-ciencia-de-dados-vai-usar-ia\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/novo-centro-de-ciencia-de-dados-vai-usar-ia\/\" rel=\"noopener\">SP ganha Centro de Ci\u00eancia de Dados que usa IA para produzir informa\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises para a gest\u00e3o p\u00fablica<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Para o soci\u00f3logo Glauco Arbix, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP e coordenador do Observat\u00f3rio da Inova\u00e7\u00e3o do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP, situa\u00e7\u00f5es parecidas devem acontecer de modo cada vez mais frequente. \u201cComo as ferramentas e plataformas de IA est\u00e3o evoluindo muito rapidamente e ganhando qualidade muito grande, elas est\u00e3o se aproximando de textos muito semelhantes aos produzidos por humanos\u201d, comenta o professor. \u201cIsso faz com que seja cada vez mais dif\u00edcil identificar o que foi feito ou n\u00e3o pela m\u00e1quina.\u201d<\/p>\n<p>O problema, Arbix explica, \u00e9 que a literatura envolve aquilo que nos distingue como humanos: a criatividade. A linguagem \u00e9 o reino da humanidade, o que nos separa de outros entes e seres da natureza. Estruturar emo\u00e7\u00f5es, dar formas aos sentimentos e explorar a criatividade s\u00e3o \u00e1reas em que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo t\u00ednhamos certeza ser imposs\u00edvel a imita\u00e7\u00e3o, seja por animais, seja por m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>\u201cO que estamos vendo \u00e9 que os algoritmos est\u00e3o evoluindo t\u00e3o rapidamente que eles acabam ocupando o espa\u00e7o que ach\u00e1vamos ser nosso, dos humanos\u201d, indica o professor. Mas n\u00e3o se trata de uma situa\u00e7\u00e3o exclusiva do campo liter\u00e1rio. Na produ\u00e7\u00e3o audiovisual, na \u00e1rea musical e em todos os ramos e segmentos da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, Arbix v\u00ea esse mesmo processo em opera\u00e7\u00e3o, de maneira generalizada.<\/p>\n<p>No que toca o campo liter\u00e1rio, os desafios n\u00e3o dizem respeito apenas a concursos, diz o professor. Povoar o mundo com textos, poesias, ensaios, m\u00fasicas e v\u00eddeos produzidos por algoritmos traz tamb\u00e9m perguntas \u00e9ticas. \u201cAt\u00e9 que ponto voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 reproduzindo vieses e preconceitos contidos nos bancos de dados dessas grandes plataformas?\u201d, questiona Arbix. Ele cita o exemplo da Grok, ferramenta de intelig\u00eancia artificial de Elon Musk, que tem suas respostas afinadas com a linha editorial da Fox News, favor\u00e1vel a Donald Trump.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 informa\u00e7\u00e3o errada. Estou falando sobre orienta\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 vis\u00e3o de mundo\u201d, comenta o docente. \u201cIsso implica vis\u00e3o de mundo sobre as mulheres, g\u00eanero, religi\u00e3o, sobre a geopol\u00edtica, todas as quest\u00f5es que tratamos no dia a dia.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, assinala Arbix, o primeiro passo \u00e9 educar as pessoas sobre as plataformas e o que \u00e9 a IA, alertando sobre os preconceitos que podem vir embutidos nos dados e respostas produzidos pelas ferramentas. Mais importante do que vetar o uso, acredita, \u00e9 fundamental ajudar as pessoas a entender a natureza dessas plataformas.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que o professor tamb\u00e9m considera essencial conscientizar a sociedade para a necessidade de transpar\u00eancia no uso da IA. \u201c\u00c9 preciso educar e tirar procedimentos, mostrar para as pessoas que ser transparente n\u00e3o desvaloriza suas atividades.\u201d Indicar onde as ferramentas foram usadas valorizaria o trabalho humano dos autores, defende, tanto no campo liter\u00e1rio como nos pr\u00f3prios meios universit\u00e1rios e cient\u00edficos, onde o uso da intelig\u00eancia artificial j\u00e1 \u00e9 uma realidade, apesar das dificuldades de regulamentar seu uso.<\/p>\n<p>Outro ponto levantado por Arbix envolve os poss\u00edveis impactos que delegar atividades tipicamente humanas para m\u00e1quinas pode representar para a vida das pessoas. \u201cO que significa isso, do ponto de vista da sua estrutura como ser humano? Significa que voc\u00ea est\u00e1 pensando menos, de uma maneira mutilada? Ao delegar, voc\u00ea adormece parte de suas atividades, voc\u00ea est\u00e1 entorpecendo suas habilidades ou, no m\u00ednimo, deixando de desenvolv\u00ea-las? Isso est\u00e1 em aberto, n\u00e3o temos respostas conclusivas.\u201d<\/p>\n<p>De todo modo, Arbix considera que outro aspecto importante da discuss\u00e3o \u00e9 reafirmar a relev\u00e2ncia da atividade humana e que nem tudo pode ser delegado para as m\u00e1quinas. \u201cCada vez que voc\u00ea substitui os humanos, voc\u00ea tem perda de qualidade no que faz.\u201d O professor pensa, aqui, sobretudo nas tarefas do pensamento. Diferentemente de outras ferramentas, como uma calculadora, os algoritmos tomam decis\u00f5es relacionadas \u00e0 cogni\u00e7\u00e3o. \u201cAtingem pessoas que trabalham com a mente e o pensamento. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 apenas no n\u00edvel de rotinizar atividades corriqueiras.\u201d Esse \u00e9 o ponto: at\u00e9 hoje, as m\u00e1quinas substitu\u00edram m\u00fasculos, diz o professor. Mas agora est\u00e3o substituindo mentes.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um universo pela frente e um n\u00famero muito grande de medidas que podem ser tomadas\u201d, acrescenta. \u201cEu s\u00f3 acho que simplesmente barrar n\u00e3o vai resolver o problema de ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria escapa dos padr\u00f5es<\/h2>\n<p>Fernando Paix\u00e3o, escritor e professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, n\u00e3o v\u00ea com grande preocupa\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a da intelig\u00eancia artificial no campo da literatura. Pelo menos n\u00e3o da literatura de boa qualidade.<\/p>\n<p>\u201cA IA trabalha com uma certa m\u00e9dia\u201d, exemplifica o professor. \u201cSe voc\u00ea coloc\u00e1-la para escrever um conto igual a Clarice Lispector, at\u00e9 acredito que o algoritmo possa fazer um conto arrumadinho, mas valendo-se de uma m\u00e9dia da Clarice. Aquele conto seria realmente concebido por ela?\u201d<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que realmente interessa, diz Paix\u00e3o, \u00e9 aquela que tenta escapar dos padr\u00f5es. Que \u00e9 mais criativa, ousada e procura se renovar. Por isso, ele n\u00e3o v\u00ea grandes problemas. O docente acredita que \u00e9 leg\u00edtima a preocupa\u00e7\u00e3o com a invas\u00e3o da IA, fato ligado n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 literatura, mas a todos os campos do saber, mas n\u00e3o acha que ela seja capaz de produzir novidades, pois trabalha com essa m\u00e9dia. \u201cE o artista \u00e9 aquele que encontra caminhos n\u00e3o \u00f3bvios\u201d, explica Paix\u00e3o, que lan\u00e7ou recentemente a colet\u00e2nea\u00a0<em>Antologia do poema em prosa no Brasil<\/em>\u00a0(Ateli\u00ea Editorial\/Editora Unicamp).<\/p>\n<p>Por outro lado, Fernando Paix\u00e3o acha que o mercado editorial pode se beneficiar da IA na produ\u00e7\u00e3o de certas obras nas quais quest\u00f5es de linguagem e complexidade das personagens n\u00e3o sejam t\u00e3o importantes. Obras que fiquem exatamente nesse \u201cn\u00edvel m\u00e9dio\u201d, como livros de autoajuda e certos tipos de\u00a0<em>best-seller<\/em>. \u201cSeria um benef\u00edcio para as editoras e um malef\u00edcio para os autores\u201d, brinca o docente. \u201cO padr\u00e3o m\u00e9dio da literatura poder\u00e1 ser feito pelas m\u00e1quinas inteligentes.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel imaginar um cen\u00e1rio, comenta Paix\u00e3o, em que as grandes corpora\u00e7\u00f5es deixem de empregar criadores e passem a usar o algoritmo. Escritores medianos poderiam ser substitu\u00eddos pela IA, enquanto as editoras aumentariam a produ\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos. O que est\u00e1 no cerne da quest\u00e3o \u00e9 substituir o trabalho assalariado pelo trabalho da m\u00e1quina, o trabalho criativo por um trabalho padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o movimento poderia fazer outras editoras despontarem investindo em mercados mais cultos, preparados e exigentes. E, acredita o docente, a IA n\u00e3o vai impedir que as pessoas continuem simplesmente querendo escrever. Ele v\u00ea tr\u00eas possibilidades: produ\u00e7\u00f5es inteiramente humanas, h\u00edbridas e produzidas s\u00f3 com uso de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>De todo modo, neste momento em que tudo \u00e9 incerto, Paix\u00e3o aponta para a quest\u00e3o \u00e9tica. No m\u00ednimo, as editoras precisam deixar claro quem est\u00e1 produzindo aquele conte\u00fado, para que o leitor seja bem informado a respeito e possa decidir.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nova tecnologia faz repensar no\u00e7\u00e3o de autoria<\/h2>\n<p>Para a professora Marisa Midori Deaecto, da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da USP, o cen\u00e1rio \u00e9 assustador. N\u00e3o porque imagina trag\u00e9dias, mas porque tudo ainda \u00e9 muito indefinido. \u00c9 dif\u00edcil fazer previs\u00f5es, j\u00e1 que as mudan\u00e7as s\u00e3o velozes e \u201cpassado, presente e futuro parecem que est\u00e3o agora em conflito\u201d, reflete Marisa.<\/p>\n<p>\u201cA constata\u00e7\u00e3o de que at\u00e9 nos concursos liter\u00e1rios as pessoas criam alguma coisa por IA \u00e9 um tanto assustadora porque a literatura sempre foi um espelho da humanidade\u201d, comenta a professora. \u201c\u00c9 um espelho da nossa capacidade de inven\u00e7\u00e3o e de cria\u00e7\u00e3o.\u201d Delegar essa capacidade, para Marisa, parece representar uma desist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa capacidade\u00a0<em>sui generis<\/em>\u00a0de ultrapassar a realidade.<\/p>\n<p>Marisa aponta que a literatura j\u00e1 viveu outros momentos de transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas essa \u00e9 a primeira vez em que uma tecnologia se presta a substituir a tarefa humana. \u201cO texto n\u00e3o \u00e9 mais apenas um meio de comunica\u00e7\u00e3o e de guarda\u201d, destaca a professora. \u201cEle tamb\u00e9m \u00e9 o produto de uma m\u00e1quina. \u00c9 um momento \u00fanico na hist\u00f3ria da escrita e na hist\u00f3ria da capacidade criadora da humanidade.\u201d<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m da discuss\u00e3o da capacidade humana de criar e de usar a imagina\u00e7\u00e3o, ainda existe a dimens\u00e3o jur\u00eddica do problema, para a qual Marisa chama aten\u00e7\u00e3o. Ela se refere \u00e0s implica\u00e7\u00f5es que a IA coloca na quest\u00e3o da autoria.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 20 anos, o aparato jur\u00eddico ocupado com os direitos do autor e o\u00a0<em>copyright\u00a0<\/em>come\u00e7ou a ser repensado com a chegada do livro digital e a difus\u00e3o do PDF, gerando d\u00favidas a respeito da fun\u00e7\u00e3o autor e da fun\u00e7\u00e3o jur\u00eddica relacionada \u00e0 autoria. Mas agora, com a IA, as quest\u00f5es aumentaram, explica a professora. \u201cO momento de hoje vai al\u00e9m, coloca em d\u00favida o que \u00e9 o pl\u00e1gio e a c\u00f3pia, uma vez que uma pessoa f\u00edsica, que responda \u00e0s leis, pode assinar pela produ\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina.\u201d<\/p>\n<p>Marisa tamb\u00e9m salienta as implica\u00e7\u00f5es da IA para a pr\u00f3pria quest\u00e3o da autoria, outro aspecto que acompanha o problema. Hoje em dia, Marisa j\u00e1 percebe um movimento de problematiza\u00e7\u00e3o da autoria, com autores que se escondem atr\u00e1s de pseud\u00f4nimos e evitam apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Trata-se, para ela, de um jogo com a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que busca colocar em d\u00favida a fun\u00e7\u00e3o autor, estabelecida desde o s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>\u201cTalvez a IA provoque de fato um novo estatuto sobre a quest\u00e3o da autoria e da atividade da escrita\u201d, comenta Marisa. \u201cEssa figura do autor \u2013 ou essa supervaloriza\u00e7\u00e3o do autor \u2013 \u00e9 algo recente na hist\u00f3ria da escrita e talvez estejamos passando por um momento de desconstru\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a atividade da escrita e a atividade autoral.\u201d<\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong> <strong><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/fapesp-e-usp-fazem-parceria-para-investir-mais-de-r-40-milhoes-em-centro-de-pesquisa-sobre-5g-e-ia-generativa\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/fapesp-e-usp-fazem-parceria-para-investir-mais-de-r-40-milhoes-em-centro-de-pesquisa-sobre-5g-e-ia-generativa\/\" rel=\"noopener\">Fapesp e USP fazem parceria para investir mais de R$ 40 milh\u00f5es em centro de pesquisa sobre 5G e IA generativa<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Marisa concorda com Paix\u00e3o em que \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o mercado editorial coloque obst\u00e1culos para a presen\u00e7a da IA na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Em anos recentes, ele j\u00e1 deu provas de sua capacidade de se adaptar quando o setor do livro impresso soube absorver obras publicadas originalmente no meio digital. O que deve acontecer, sugere a professora, \u00e9 um trabalho de marketing para adaptar o p\u00fablico e um mapeamento do comportamento diante da novidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 convivemos com a aceita\u00e7\u00e3o de diferentes n\u00edveis de escrita liter\u00e1ria, lembra Marisa. Existe p\u00fablico para os\u00a0<em>best-sellers<\/em>\u00a0e para autores como Guimar\u00e3es Rosa, cujo trabalho com a linguagem pode significar a chave para se pensar o universo liter\u00e1rio diante da IA.<\/p>\n<p>\u201cA literatura que explora a linguagem talvez seja fruto da capacidade humana\u201d, diz a professora. \u201cEspero que n\u00e3o se torne t\u00e3o rara assim \u2013 est\u00e1 dif\u00edcil encontrar, e n\u00e3o sei se a IA pode substituir isso. A explora\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, as surpresas que a l\u00edngua portuguesa pode nos causar v\u00e3o al\u00e9m de um arcabou\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es. Passa pela fala, pela experi\u00eancia humana, por fatores que uma m\u00e1quina n\u00e3o pode explorar.\u201d<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Editora da USP restringe uso de IA<\/h2>\n<p>Para lidar com a presen\u00e7a da intelig\u00eancia artificial no mercado editorial, a Editora da USP (Edusp) vem adotando uma pol\u00edtica de restri\u00e7\u00e3o total nos t\u00edtulos que publica. \u00c9 o que conta a editora Carla Fernanda Fontana. \u201cN\u00e3o aceitamos textos escritos por IA. Isso foi uma decis\u00e3o tomada pelo conselho editorial\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Por conta disso, j\u00e1 na entrega dos originais, os autores precisam assinar uma declara\u00e7\u00e3o anunciando que n\u00e3o houve uso de IA na obra. Carla explica que \u00e9 uma esp\u00e9cie de antecipa\u00e7\u00e3o do que j\u00e1 era previsto no contrato assinado entre autor e editora a respeito da originalidade do texto. \u201cNeste primeiro momento, para evitar problemas futuros, enquanto esse assunto \u00e9 muito novo, optamos pela restri\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um procedimento adotado apenas pela Edusp, mas uma preocupa\u00e7\u00e3o de todo o mercado editorial, aponta Carla. Ela lembra que o pr\u00f3prio Pr\u00eamio Jabuti \u2013 a mais prestigiada honraria liter\u00e1ria do Pa\u00eds, entregue pela C\u00e2mara Brasileira do Livro (CBL) \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 totalmente restritivo quanto ao uso da IA.<\/p>\n<p>Carla conta ainda que a partir deste ano, com a dimens\u00e3o que o assunto ganhou, alguns contratos de edi\u00e7\u00e3o que a Edusp assinou com editoras estrangeiras para tradu\u00e7\u00e3o j\u00e1 vieram com itens que deixam expl\u00edcita a proibi\u00e7\u00e3o aos tradutores de carregar qualquer arquivo recebido em sistemas de IA. \u201cNo contrato j\u00e1 est\u00e1 especificado que, no processo de produ\u00e7\u00e3o, o texto n\u00e3o pode ser usado para alimentar sistemas de IA.\u201d<\/p>\n<p>A editora acredita que usos proveitosos da IA ainda podem ser discutidos, mas ainda \u00e9 preciso estudar o que pode ser feito. \u201cCom certeza eles existem, mas n\u00e3o sabemos as consequ\u00eancias disso\u201d, comenta. \u201c\u00c9 ainda nebuloso para fazermos previs\u00f5es.\u201d<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/impacto-da-ia-na-producao-literaria\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00eas passado, o cancelamento de um concurso liter\u00e1rio revelou os primeiros impactos que a intelig\u00eancia artificial (IA) vem causando na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e no mercado editorial brasileiro. 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