{"id":43086,"date":"2025-08-30T16:41:30","date_gmt":"2025-08-30T19:41:30","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/a-aposta-da-ciencia-para-a-transicao-energetica\/"},"modified":"2025-08-30T16:41:30","modified_gmt":"2025-08-30T19:41:30","slug":"a-aposta-da-ciencia-para-a-transicao-energetica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/a-aposta-da-ciencia-para-a-transicao-energetica\/","title":{"rendered":"a aposta da ci\u00eancia para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<br \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/20250821_baratinha.jpg.jpg?w=696&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p>Na rua, no banheiro ou na cozinha, quem encontra uma barata nunca julga estar em boa companhia. Pesquisadores do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no entanto, apostam em parceria com elas para provar o contr\u00e1rio: a alian\u00e7a inesperada pode ser chave na busca por uma matriz energ\u00e9tica mais limpa.<\/p>\n<p>Poucos animais s\u00e3o mais ecl\u00e9ticos do que as baratas quando se trata de alimenta\u00e7\u00e3o. Por vezes descritas como detrit\u00edvoras, se alimentam desde folhas secas at\u00e9 dejetos \u2013 os \u201crestos\u201d da natureza. Ainda que consideradas sujas, as baratas mant\u00eam um papel de \u201cfaxineiras\u201d dos ecossistemas, consumindo a mat\u00e9ria org\u00e2nica que, em excesso, desregularia o equil\u00edbrio ambiental. Para usufruir dessa dieta variada, desenvolveram, ao longo de milh\u00f5es de anos, um sistema digestivo \u201ccoringa,\u201d capaz de processar com muita efici\u00eancia uma ampla gama de alimentos. Essa capacidade adaptativa foi o foco do estudo.<\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M: <a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/planejamento-de-usinas-de-hidrogenio-verde\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/planejamento-de-usinas-de-hidrogenio-verde\/\" rel=\"noopener\">Modelo computacional aprimora o planejamento de usinas de hidrog\u00eanio verde<\/a><\/strong><\/p>\n<p>No Departamento de Bot\u00e2nica do IB, o professor Marcos Buckeridge foi um dos pesquisadores envolvidos no esfor\u00e7o de descri\u00e7\u00e3o do sistema digestivo da barata\u00a0<em>Periplaneta americana<\/em>\u00a0\u2013 a mesma esp\u00e9cie encontrada pelas ruas de ambientes urbanos. Ele explica que tinha como objetivo entender como o inseto degrada a biomassa, a mat\u00e9ria org\u00e2nica utilizada como alimento.<\/p>\n<p>\u201cQuer\u00edamos saber quais enzimas e quais estruturas atacavam a biomassa,\u201d explica Buckeridge. Ao compreender como plantas e animais processam mat\u00e9ria org\u00e2nica, diz ele, \u00e9 poss\u00edvel identificar fun\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas que podem ser adaptadas para uso industrial. Essa abordagem, conhecida como biomim\u00e9tica e baseada na observa\u00e7\u00e3o da natureza, abre perspectivas animadoras para o setor bioenerg\u00e9tico. Inspirar-se nas baratas pode ser a chave para aproveitar melhor o baga\u00e7o de cana-de-a\u00e7\u00facar na ind\u00fastria, por exemplo.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cCom isso, ter\u00edamos uma pot\u00eancia muito maior de degrada\u00e7\u00e3o da biomassa para produ\u00e7\u00e3o do etanol,\u201d ressalta. Os resultados, descritos em\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s12155-025-10872-6\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">artigo publicado<\/a>\u00a0na revista\u00a0<em>BioEnergy Research<\/em>, permitem pensar em \u201credu\u00e7\u00e3o de custo de produ\u00e7\u00e3o, com a possibilidade de aumento da efici\u00eancia industrial,\u201d acelerando a degrada\u00e7\u00e3o da biomassa. \u201cAprimorar a tecnologia e melhorar a extra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica da cana reduz o espa\u00e7o necess\u00e1rio para plantio \u2013 e essa \u00e1rea pode ser ocupada por florestas,\u201d adiciona Buckeridge.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Operadores de baratas<\/h2>\n<p>O papel das baratas na ind\u00fastria do etanol \u00e9 qualificado. \u201cO objetivo n\u00e3o \u00e9 criar usinas lotadas de baratas, mas entender como elas fazem uma digest\u00e3o t\u00e3o completa para que possamos reproduzir isso em escala industrial,\u201d explica Buckeridge.<\/p>\n<p>\u201cAs baratas t\u00eam um processo de digest\u00e3o extremamente eficiente para fibras vegetais. Se entendermos como elas fazem isso, podemos criar solu\u00e7\u00f5es mais baratas e sustent\u00e1veis para a produ\u00e7\u00e3o de energia,\u201d afirma Ednildo Machado, coautor do artigo. Professor da UFRJ, o entom\u00f3logo (especialista em insetos) conta que a proposta da dupla de pesquisadores \u00e9 enfrentar o desafio de traduzir essa capacidade para a escala industrial.<\/p>\n<p>Parceiros h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, Buckeridge e Machado buscam uma alternativa sustent\u00e1vel, barata e eficiente para produ\u00e7\u00e3o do bioetanol \u2013 \u201csem produtos qu\u00edmicos agressivos e com temperaturas moderadas,\u201d minimizando os impactos ambientais da ind\u00fastria bioenerg\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u201cO que estamos fazendo \u00e9 olhar para a natureza e copiar o que ela j\u00e1 resolveu h\u00e1 milh\u00f5es de anos\u201d, diz Ednildo Machado.<\/p>\n<p>O charme dos insetos, ent\u00e3o, est\u00e1 na forma com que degradam a parede celular de c\u00e9lulas vegetais com grande efici\u00eancia. No processo de produ\u00e7\u00e3o do etanol, a cana \u00e9 o principal insumo \u2013 por vezes substitu\u00edda por beterraba, trigo ou milho. A tecnologia desenvolvida no Brasil envolve a transforma\u00e7\u00e3o da celulose existente no baga\u00e7o em a\u00e7\u00facar, que \u00e9 fermentado e destilado at\u00e9 virar etanol.<\/p>\n<p>O desafio para reduzir a emiss\u00e3o de poluentes, segundo os cientistas, \u00e9 a viabilidade econ\u00f4mica. Embora n\u00e3o exija investimentos como os do extrativismo mineral, o processo ainda possui um custo muito alto \u2013 financeiro, industrial e espacial. Alternativas verdes tendem a ser onerosas e pouco competitivas no mercado. A replica\u00e7\u00e3o do coquetel de enzimas (prote\u00ednas aceleradoras de rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas) produzido no trato intestinal de baratas pode acelerar e aumentar a efici\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o, diminuindo o custo final.<\/p>\n<p>\u201cSe conseguirmos produzir mais etanol de forma mais barata, poderemos produzir mais em menos \u00e1rea. Quanto menos \u00e1rea \u00e9 usada, menos carbono \u00e9 emitido,\u201d destaca Buckeridge. \u201cDescobrindo novas enzimas, novos microrganismos, caminhamos nesse sentido.\u201d<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da bioqu\u00edmica, o bi\u00f3logo aposta na adapta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria aos modelos da natureza: \u201cUm passo al\u00e9m seria mudar a estrutura \u2013 de metais para materiais mais flex\u00edveis, com peristaltismo (movimento intestinal), que imitassem ainda mais o que acontece no sistema digestivo\u201d. Buckeridge explica que essa mudan\u00e7a pode ser uma forma de fortalecer a integra\u00e7\u00e3o humano-natureza e de tornar a produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica mais sustent\u00e1vel. \u201cEsses s\u00e3o os melhores processos: solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza.\u00a0\u00c9 um objetivo final. N\u00e3o \u00e9 ut\u00f3pico,\u201d garante.<\/p>\n<p>\u201cAs solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza surgem da an\u00e1lise de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o de diferentes esp\u00e9cies, com resultados consolidados pela sele\u00e7\u00e3o natural. Podemos aproveit\u00e1-las para uso humano, na ind\u00fastria\u201d, afirma Marcos Buckeridge.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<\/blockquote>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Passo a passo\u00a0<\/h2>\n<p>\u201cConseguimos pensar em biotecnologia porque estamos sentados em uma pilha de conhecimento cient\u00edfico, de ci\u00eancia b\u00e1sica,\u201d constata Buckeridge. \u00c9 devido aos anos de estudo de ecologia e de fisiologia de insetos que se pode planejar a aplica\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es na ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Nas baratas, o processo de degrada\u00e7\u00e3o das fibras da cana ocorre em quatro etapas: \u201cO intestino da barata \u00e9 como uma linha de produ\u00e7\u00e3o: cada parte tem uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para triturar, degradar e aproveitar ao m\u00e1ximo o material,\u201d explica Machado. O processo de digest\u00e3o come\u00e7a com uma esp\u00e9cie de mastiga\u00e7\u00e3o. Os \u201cdentes\u201d das baratas \u2013 estruturas de quitina que moem o alimento \u2013 trituram as fibras. Em seguida, numa c\u00e2mara digestiva enzim\u00e1tica, as prote\u00ednas quebram a biomassa \u2013 processo continuado no ambiente seguinte, com ajuda de compostos alcalinos, com pH alto e capacidade oxirredutiva.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 nela que se quebra a maior parte dos a\u00e7\u00facares \u2013 o interesse da ind\u00fastria bioenerg\u00e9tica. Por fim, a biomassa chega \u00e0 \u201ccasa dos microrganismos,\u201d segundo Machado, onde bact\u00e9rias especializadas e residentes do intestino finalizam a digest\u00e3o. A sequ\u00eancia , \u201caprovada\u201d pela sele\u00e7\u00e3o natural, \u00e9 a proposta dos cientistas para a ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos passos envolvem outros insetos. O estudo de cupins e ten\u00e9brios \u2013 pequenas larvas de besouro \u2013 podem trazer outras possibilidades e novos coquet\u00e9is enzim\u00e1ticos ao mercado. Buckeridge e Machado adiantam que os cupins t\u00eam uma capacidade ainda maior para serem utilizados na ind\u00fastria \u2013 os insetos degradam quase 90% da celulose.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/baratas-aposta-para-transicao-energetica\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na rua, no banheiro ou na cozinha, quem encontra uma barata nunca julga estar em boa companhia. 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