{"id":42330,"date":"2025-08-24T09:43:09","date_gmt":"2025-08-24T12:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/2025\/08\/24\/mudancas-climaticas-podem-reduzir-a-recarga-de-aquiferos\/"},"modified":"2025-08-24T09:43:09","modified_gmt":"2025-08-24T12:43:09","slug":"mudancas-climaticas-podem-reduzir-a-recarga-de-aquiferos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/mudancas-climaticas-podem-reduzir-a-recarga-de-aquiferos\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem reduzir a recarga de aqu\u00edferos"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>A crise clim\u00e1tica global pode comprometer de forma significativa a recarga natural dos aqu\u00edferos brasileiros, reduzindo a oferta de \u00e1guas subterr\u00e2neas em praticamente todo o territ\u00f3rio nacional. A conclus\u00e3o \u00e9 de um estudo, conduzido por cientistas do Instituto de Geoci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (IGc-USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que analisou os impactos de diferentes cen\u00e1rios clim\u00e1ticos sobre a disponibilidade h\u00eddrica at\u00e9 o final do s\u00e9culo. O trabalho foi\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/s10661-025-14235-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>publicado<\/strong><\/a>\u00a0no peri\u00f3dico\u00a0<em>Environmental Monitoring and Assessment<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c1guas subterr\u00e2neas s\u00e3o aquelas que se acumulam abaixo da superf\u00edcie terrestre, em forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas chamadas aqu\u00edferos. Infiltram-se lentamente no solo ap\u00f3s as chuvas e abastecem po\u00e7os, nascentes, rios e ecossistemas. No Brasil, estima-se que 112 milh\u00f5es de brasileiros (56% da popula\u00e7\u00e3o) sejam abastecidos total ou parcialmente por essa fonte.<\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M: <a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/planejamento-de-usinas-de-hidrogenio-verde\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/planejamento-de-usinas-de-hidrogenio-verde\/\" rel=\"noopener\">Modelo computacional aprimora o planejamento de usinas de hidrog\u00eanio verde<\/a><\/strong><\/p>\n<p>O estudo do IGc-USP e do Inpe utilizou um modelo de balan\u00e7o h\u00eddrico baseado em geoprocessamento e dados corrigidos de proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas do\u00a0<em>Coupled Model Intercomparison Project Phase 6<\/em>\u00a0(CMIP6) para estimar as altera\u00e7\u00f5es de temperatura, precipita\u00e7\u00e3o, escoamento superficial e recarga de aqu\u00edferos entre 2025 e 2100. O CMIP6 unifica dados de v\u00e1rios centros de pesquisa em todo o mundo e \u00e9 o modelo mais recente produzido pelo Programa Mundial de Pesquisa Clim\u00e1tica (WCRP, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>A pesquisa considerou dois cen\u00e1rios de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa: um moderado e outro pessimista. \u201cO que constatamos foi a possibilidade de uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da recarga dos aqu\u00edferos do pa\u00eds, especialmente nas regi\u00f5es Sudeste e Sul, que v\u00e3o ficar mais secas segundo praticamente todos os modelos clim\u00e1ticos analisados\u201d, afirma\u00a0Ricardo Hirata, professor titular do IGc-USP e primeiro autor do artigo.<\/p>\n<p>Os resultados mostram que o pa\u00eds dever\u00e1 registrar aumentos consistentes de temperatura ao longo do s\u00e9culo, entre 1,02 \u00b0C e 3,66 \u00b0C, dependendo do cen\u00e1rio e do per\u00edodo considerado. Ao mesmo tempo, a distribui\u00e7\u00e3o das chuvas tende a se tornar ainda mais desigual. A regi\u00e3o Norte e parte do litoral Leste devem apresentar queda na precipita\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual, ao passo que o Sul e parte do Nordeste (especialmente Cear\u00e1, Piau\u00ed e Maranh\u00e3o) podem experimentar aumentos pontuais.<\/p>\n<p>\u201cMesmo em regi\u00f5es como o Sudeste, onde a quantidade total de chuvas n\u00e3o dever\u00e1 variar muito, teremos uma mudan\u00e7a de regime, com ver\u00f5es mais chuvosos e per\u00edodos secos mais longos. Chuvas muito intensas e concentradas promovem o escoamento superficial e podem provocar inunda\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o favorecem a infiltra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no solo. E, sem infiltra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 recarga\u201d, informa Hirata.<\/p>\n<p>O pesquisador destaca que, mesmo quando a \u00e1gua penetra no solo, o processo at\u00e9 atingir o aqu\u00edfero pode levar meses. \u201cEm v\u00e1rios estudos nossos, vimos que a \u00e1gua leva dois ou tr\u00eas meses para atravessar 10 a 15 metros de solo e chegar ao len\u00e7ol fre\u00e1tico. Se a chuva for intensa demais e durar pouco, essa \u00e1gua n\u00e3o chega l\u00e1\u201d, pontua.<\/p>\n<p>A recarga subterr\u00e2nea pode diminuir at\u00e9 666 mil\u00edmetros por ano nas \u00e1reas mais afetadas. A situa\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica deve ocorrer no Sistema Aqu\u00edfero Bauru-Caiu\u00e1 (localizado na regi\u00e3o Centro-Oeste do Brasil, abrangendo partes dos Estados de Minas Gerais, S\u00e3o Paulo, Goi\u00e1s, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso), com redu\u00e7\u00e3o de 27,94% no volume recarregado. Outros aqu\u00edferos importantes, como a \u00e1rea de afloramento do Guarani (em por\u00e7\u00f5es dos Estados de MG, SP, GO, MS, MT, PR, SC, RS), Furnas (BA, GO, MG), Serra Geral (MS, SP, PR, SC, RS), Bambu\u00ed C\u00e1rstico (PI, PB, PE, BA, GO, MG) e Parecis (RO, AM, MT), tamb\u00e9m devem sofrer perdas significativas.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desaten\u00e7\u00e3o para o problema<\/strong><\/h2>\n<p>Apesar de sua import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, a dimens\u00e3o subterr\u00e2nea da crise h\u00eddrica tem recebido pouca aten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cA \u00e1gua subterr\u00e2nea continua sendo esquecida na discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Quando se fala do clima, fala-se de rios, de vegeta\u00e7\u00e3o, de agricultura. Mas os aqu\u00edferos n\u00e3o entram na agenda\u201d, aponta Hirata.<\/p>\n<p>Ele lembra que mais da metade dos munic\u00edpios brasileiros utiliza \u00e1gua subterr\u00e2nea para abastecimento. \u201cTemos uma gigantesca reserva de \u00e1gua que \u00e9 resiliente a varia\u00e7\u00f5es de recarga. Mesmo em anos de estiagem, o aqu\u00edfero continua fornecendo \u00e1gua, porque seu armazenamento \u00e9 muito grande. Foi o que ocorreu na grande estiagem de 2014-2016. As cidades abastecidas por \u00e1gua superficial foram duas vezes mais atingidas pela crise h\u00eddrica do que aquelas abastecidas exclusivamente por \u00e1gua subterr\u00e2nea\u201d, afirma Hirata. <\/p>\n<p>Existem cerca de 3 milh\u00f5es de po\u00e7os tubulares perfurados e outros 2 milh\u00f5es de po\u00e7os escavados no Brasil, que extraem entre 550 e 600 metros c\u00fabicos de \u00e1gua por segundo. Desse total, 80% a 90% destinam-se para uso privado, na agricultura, ind\u00fastria, servi\u00e7os e abastecimento residencial complementar nas \u00e1reas urbanas.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a cidade de S\u00e3o Paulo. \u201cApenas 1% do abastecimento p\u00fablico vem de aqu\u00edferos. Mas h\u00e1 cerca de 13 mil po\u00e7os privados na regi\u00e3o metropolitana que respondem por 11 metros c\u00fabicos por segundo. Durante a crise h\u00eddrica, isso chegou a suprir 25% da demanda\u201d, quantifica Hirata. Ele argumenta que, apesar de sua evidente distor\u00e7\u00e3o, o uso privado acaba tendo um papel social importante: \u201cPode parecer contradit\u00f3rio, mas, quando os ricos usam \u00e1gua de po\u00e7os, sobra mais \u00e1gua da rede para os mais pobres\u201d.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Solu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h2>\n<p>O estudo n\u00e3o se limita a apontar problemas, prop\u00f5e tamb\u00e9m solu\u00e7\u00f5es. Uma estrat\u00e9gia promissora \u00e9 a recarga manejada de aqu\u00edferos (MAR, na sigla em ingl\u00eas para\u00a0<em>managed aquifer recharge<\/em>), que emprega t\u00e9cnicas para favorecer a infiltra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua de chuva ou de \u00e1guas de esgoto tratadas. A MAR inclui at\u00e9 mesmo a inje\u00e7\u00e3o direta no aqu\u00edfero, como j\u00e1 ocorre em Madri, na Espanha.<\/p>\n<p>O pesquisador explica que a recarga manejada pode ser feita com estruturas simples, como bacias de infiltra\u00e7\u00e3o ou pequenas barragens, at\u00e9 sistemas mais sofisticados de inje\u00e7\u00e3o direta no aqu\u00edfero. \u201c\u00c9 poss\u00edvel captar a \u00e1gua de chuva ou mesmo o esgoto tratado e conduzir isso a sistemas de infiltra\u00e7\u00e3o planejados. O solo funciona como um super-reator biogeoqu\u00edmico, capaz de purificar essa \u00e1gua durante o trajeto at\u00e9 o aqu\u00edfero.\u201d<\/p>\n<p>Em cidades grandes, como S\u00e3o Paulo, parte da recarga subterr\u00e2nea j\u00e1 ocorre de forma involunt\u00e1ria. \u201cEstudos com is\u00f3topos mostram que cerca de 50% da recarga na regi\u00e3o central vem de vazamentos nas redes de \u00e1gua e esgoto. Isso mostra que a ocupa\u00e7\u00e3o urbana tamb\u00e9m pode afetar positivamente os processos subterr\u00e2neos\u201d, pondera Hirata.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"467\" height=\"711\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Principais-aquiferos-existentes-no-Brasil-considerando-se-o-seu-potencial-hidrico.jpg?resize=467%2C711&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-77848\" srcset=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Principais-aquiferos-existentes-no-Brasil-considerando-se-o-seu-potencial-hidrico.jpg 467w, https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Principais-aquiferos-existentes-no-Brasil-considerando-se-o-seu-potencial-hidrico-197x300.jpg 197w, https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Principais-aquiferos-existentes-no-Brasil-considerando-se-o-seu-potencial-hidrico-150x228.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 467px) 100vw, 467px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Principais aqu\u00edferos existentes no Brasil, considerando-se o seu potencial h\u00eddrico. Foto: Atlas Geogr\u00e1fico Escolar do IBGE<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/mudancas-climaticas-podem-reduzir-a-recarga-de-aquiferos\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise clim\u00e1tica global pode comprometer de forma significativa a recarga natural dos aqu\u00edferos brasileiros, reduzindo a oferta de \u00e1guas subterr\u00e2neas em praticamente todo o territ\u00f3rio nacional. 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