{"id":42272,"date":"2025-08-23T13:18:17","date_gmt":"2025-08-23T16:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/2025\/08\/23\/pesquisadores-da-usp-alertam-para-possivel-introducao-de-novo-vetor-de-malaria-no-brasil\/"},"modified":"2025-08-23T13:18:17","modified_gmt":"2025-08-23T16:18:17","slug":"pesquisadores-da-usp-alertam-para-possivel-introducao-de-novo-vetor-de-malaria-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/pesquisadores-da-usp-alertam-para-possivel-introducao-de-novo-vetor-de-malaria-no-brasil\/","title":{"rendered":"Pesquisadores da USP alertam para poss\u00edvel introdu\u00e7\u00e3o de novo vetor de mal\u00e1ria no Brasil"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<br \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.agenciasp.sp.gov.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/20250819_anopheles_stephensi.jpg?w=696&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam tornado o ambiente urbano vulner\u00e1vel \u00e0 mal\u00e1ria, doen\u00e7a que historicamente se restringia \u00e0s zonas florestais. O risco est\u00e1 associado ao vetor\u00a0<em>Anopheles stephensi,\u00a0<\/em>origin\u00e1rio da \u00c1sia, e identificado como esp\u00e9cie invasora pela primeira vez em 2012, em Djibuti, no continente africano. Segundo a pesquisa, atualmente ele foi detectado em cerca de 14 pa\u00edses, com uma r\u00e1pida expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Semelhan\u00e7as clim\u00e1ticas entre as regi\u00f5es afetadas e o Brasil demonstram que o pa\u00eds pode ser afetado, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-025-07653-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um estudo<\/a>\u00a0da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica (FSP) e do Grupo de Estudos em Sa\u00fade Planet\u00e1ria Brasil (SPBr) do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA), ambos da USP.<\/p>\n<p>Equipar\u00e1vel ao\u00a0<em>Aedes aegypti<\/em>\u00a0(vetor de dengue, zika, chikungunya) em termos de sele\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitat e reprodu\u00e7\u00e3o, o\u00a0<em>Anopheles stephensi<\/em>\u00a0deposita seus ovos em recipientes com ac\u00famulo de \u00e1gua, como pneus e caixas d\u2019\u00e1gua. A sua dissemina\u00e7\u00e3o ocorre principalmente atrav\u00e9s de duas vias: ativamente, por meio do transporte de cargas em navios, e passivamente, atrav\u00e9s de fluxos de vento.<\/p>\n<p>O artigo, rec\u00e9m-publicado pela revista\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>, refor\u00e7a a vulnerabilidade do Brasil, que se encontra na rota potencial de introdu\u00e7\u00e3o do mosquito, gra\u00e7as ao com\u00e9rcio com pa\u00edses em que o vetor est\u00e1 presente. O cen\u00e1rio preocupa, principalmente, porque os portos nacionais est\u00e3o associados a grandes centros urbanos.<\/p>\n<p>Segundo Andr\u00e9 Lu\u00eds Acosta, coordenador do grupo de estudos SPBr e um dos autores do trabalho, o transporte mar\u00edtimo desempenha papel central na dissemina\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Anopheles stephensi<\/em>. Durante o processo de coleta e entrega de mercadorias entre portos, ovos e mosquitos adultos podem ser levados juntos, facilitando a chegada do vetor a novas localidades.<\/p>\n<p>\u201cQuando esse navio [de mercadorias] descarrega no outro porto pode levar at\u00e9 mesmo mosquitos adultos, porque alguns eclodem durante a viagem\u201d, explica Acosta.\u00a0O pesquisador, que estuda mal\u00e1ria na Amaz\u00f4nia, conta ter voltado sua aten\u00e7\u00e3o ao tema em 2023, quando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)\u00a0<a href=\"https:\/\/www.who.int\/publications\/i\/item\/WHO-UCN-GMP-2022.06\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">lan\u00e7ou<\/a>\u00a0uma iniciativa para conter a propaga\u00e7\u00e3o do vetor no continente africano.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O vetor<\/h2>\n<p>O mosquito \u00e9 o vetor respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o do protozo\u00e1rio\u00a0Plasmodium, causador da mal\u00e1ria, uma doen\u00e7a grave que pode levar \u00e0 morte se n\u00e3o for diagnosticada e tratada rapidamente. A infec\u00e7\u00e3o ocorre por meio da picada de f\u00eameas infectadas dos g\u00eaneros Anopheles. No Brasil, o vetor principal \u00e9\u00a0<em>Anopheles darlingi<\/em>, presente, principalmente, em zonas florestais.<\/p>\n<p>O ciclo de transmiss\u00e3o da mal\u00e1ria come\u00e7a quando o mosquito pica uma pessoa j\u00e1 infectada e ingere os parasitas causadores da doen\u00e7a. A partir disso, ele se torna capaz de transmitir a doen\u00e7a ao picar outras pessoas, inocular os microrganismos no sangue delas e completando o ciclo de infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Anopheles stephensi<\/em>\u00a0foi identificado como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.who.int\/news-room\/feature-stories\/detail\/mosquito-on-the-move?\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">esp\u00e9cie invasora pela primeira vez em 2012, em Djibuti<\/a>, na \u00c1frica, e tem r\u00e1pida expans\u00e3o. No Brasil, a ampla distribui\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Aedes aegypti<\/em>\u00a0demonstra como mosquitos adaptados a ambientes urbanos podem ocupar o territ\u00f3rio. O pesquisador aponta ser essencial que os \u00f3rg\u00e3os de vigil\u00e2ncia reforcem o monitoramento entomol\u00f3gico, sobretudo nos portos, para identifica\u00e7\u00e3o precoce do\u00a0<em>Anopheles stephensi<\/em>, reduzindo o risco de sua introdu\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Para ele, com a poss\u00edvel introdu\u00e7\u00e3o de mais esse vetor, a transmiss\u00e3o poder\u00e1 ocorrer tamb\u00e9m em \u00e1reas rurais e urbanas, ampliando o alcance da doen\u00e7a \u2013 o que representa um risco de crise em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Na zona saheliana do Mali foi observada tamb\u00e9m sua capacidade de se expandir atrav\u00e9s de fluxos do vento, embora esse m\u00e9todo ocorra ap\u00f3s a invas\u00e3o do vetor no continente. Segundo o pesquisador, caso o vetor chegue ao Brasil, h\u00e1 risco de que os ventos mar\u00edtimos facilitem o transporte de \u00e1reas portu\u00e1rias para urbanas, como de Santos a S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cA detec\u00e7\u00e3o do mosquito antes de algum processo de transmiss\u00e3o de mal\u00e1ria \u00e9 o mais importante para conseguirmos monitorar e controlar a entrada do vetor, e com isso reduzir o risco de urbaniza\u00e7\u00e3o da mal\u00e1ria. E n\u00e3o temos nenhuma ideia se ele j\u00e1 chegou ou n\u00e3o [ao Brasil], inclusive. Porque n\u00e3o temos esse tipo de coleta sistem\u00e1tica em portos visando a detectar o vetor\u201d \u2013 Andr\u00e9 Lu\u00eds Acosta<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/h2>\n<p>A pesquisa \u00e9 baseada em modelagem de cen\u00e1rios. Seu per\u00edodo de refer\u00eancia, ou\u00a0<em>baseline<\/em>, cont\u00e9m dados de 1970 a 2010 e projeta cen\u00e1rios futuros entre 2021 e 2100. Ap\u00f3s as avalia\u00e7\u00f5es, foi constatado que 40% da popula\u00e7\u00e3o global est\u00e1 em \u00e1reas com aptid\u00e3o clim\u00e1tica para o mosquito, e que at\u00e9 2100 esses n\u00fameros podem chegar a 56%.<\/p>\n<p>A aptid\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 medida a partir da investiga\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplas camadas clim\u00e1ticas em escala global, que combinam fatores relacionados \u00e0 temperatura e precipita\u00e7\u00e3o. Segundo Acosta, a abordagem permite identificar e mapear padr\u00f5es clim\u00e1ticos similares entre os pa\u00edses em que o mosquito est\u00e1 presente e \u00e1reas n\u00e3o invadidas.<\/p>\n<p>Os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas foram um ponto-chave para as previs\u00f5es do estudo. Neste caso, foram consideradas as proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da mais recente campanha de modelos clim\u00e1ticos CMIP6 \u2013 que padroniza os processos para a gera\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios futuros de modelos clim\u00e1ticos \u2013, divididas a cada 20 anos at\u00e9 2100.<\/p>\n<p>Para a pesquisa foram utilizados oito algoritmos para avaliar e traduzir os dados a partir de diferentes l\u00f3gicas de modelagem. Tamb\u00e9m foram incorporados modelos clim\u00e1ticos de tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es de pesquisa de refer\u00eancia, que projetam cen\u00e1rios de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para per\u00edodos futuros (GCM- Global Circulation Models). Elas foram escolhidas com base na frequ\u00eancia de cita\u00e7\u00e3o no Scopus, um banco de dados acad\u00eamico.<\/p>\n<p>\u201cGeramos proje\u00e7\u00f5es futuras com uso de tr\u00eas fontes distintas e muito confi\u00e1veis de GCMs. As vari\u00e1veis destas tr\u00eas fontes n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticas quanto \u00e0s proje\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para o futuro; por consequ\u00eancia, os modelos de adequabilidade para o vetor tamb\u00e9m geram resultados diferentes, ao considerarmos as converg\u00eancias em comum entre as tr\u00eas fontes distintas aumentamos a precis\u00e3o das estimativas finais\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>A partir disso, foi formado o\u00a0Ensemble Forecast Model, que aumenta a confiabilidade das previs\u00f5es e gera mapas para subsidiar decis\u00f5es estrat\u00e9gicas em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Segundo Acosta, algumas esp\u00e9cies, como os mosquitos vetores de doen\u00e7as, se beneficiam das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas com aumento da aptid\u00e3o e expans\u00e3o de seus h\u00e1bitats. Assim, a capacidade de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as, como a mal\u00e1ria, tamb\u00e9m cresce e passa a atingir mais pessoas.<\/p>\n<p>\u201cSe o clima \u00e9 parecido, o risco j\u00e1 \u00e9 muito grande, porque o principal limitante inicial para as esp\u00e9cies invasoras se expandirem ap\u00f3s introduzidas \u00e9 o clima. Se essa barreira desaparece e existe h\u00e1bitat dispon\u00edvel \u2013 como latinhas jogadas acumulando \u00e1gua, e tudo aquilo que os mosquitos\u00a0<em>Aedes aegypti<\/em>\u00a0j\u00e1 usam nas cidades para sobreviverem \u2013 o risco deste novo vetor ser introduzido \u00e9 muito grande, \u00e9 absurdo\u201d, destaca o pesquisador.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que tem sido feito?<\/h2>\n<p>Acosta diz que a preven\u00e7\u00e3o passa pela divulga\u00e7\u00e3o dessas informa\u00e7\u00f5es. Os pesquisadores t\u00eam buscado conscientizar a popula\u00e7\u00e3o sobre os perigos da chegada do vetor, com a\u00a0<a href=\"https:\/\/malariaglobal.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">campanha Mal\u00e1ria Global<\/a>.<\/p>\n<p>Segundo ele, n\u00e3o h\u00e1 medidas dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos para a detec\u00e7\u00e3o do vetor no territ\u00f3rio brasileiro. \u201cN\u00e3o existe nenhum controle de vigil\u00e2ncia ou de monitoramento que busque encontrar esse mosquito em portos. Este \u00e9 o nosso principal motivo para alertar a necessidade de levantamentos sistem\u00e1ticos em campo\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, as \u00fanicas medidas poss\u00edveis s\u00e3o as mesmas que j\u00e1 devem ser feitas para a preven\u00e7\u00e3o e controle contra o\u00a0<em>Aedes aegypti<\/em>, ou seja, evitar o foco de \u00e1gua parada.<\/p>\n<p>O trabalho completo pode ser acessado\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-025-07653-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">neste link<\/a>.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.agenciasp.sp.gov.br\/pesquisadores-da-usp-alertam-para-possivel-introducao-de-novo-vetor-de-malaria-no-brasil\/\" rel=\"noopener\">Informa\u00e7\u00f5es GOV.SP<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam tornado o ambiente urbano vulner\u00e1vel \u00e0 mal\u00e1ria, doen\u00e7a que historicamente se restringia \u00e0s zonas florestais. 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