{"id":1741,"date":"2024-04-17T12:09:07","date_gmt":"2024-04-17T15:09:07","guid":{"rendered":"https:\/\/guialimeira.com.br\/2024\/04\/17\/modo-nao-indigena-de-pensar-futuro-e-alienante-diz-daniel-munduruku\/"},"modified":"2024-04-17T12:09:07","modified_gmt":"2024-04-17T15:09:07","slug":"modo-nao-indigena-de-pensar-futuro-e-alienante-diz-daniel-munduruku","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guialimeira.com.br\/news\/modo-nao-indigena-de-pensar-futuro-e-alienante-diz-daniel-munduruku\/","title":{"rendered":"Modo n\u00e3o ind\u00edgena de pensar futuro \u00e9 alienante, diz Daniel Munduruku"},"content":{"rendered":"<p> <br \/>\n<\/p>\n<div>\n<p>Daniel Munduruku n\u00e3o se ilude. Seja percorrendo o mundo para falar sobre literatura e divulgar os mais de 60 livros que escreveu, seja atuando em uma novela da emissora de maior audi\u00eancia do pa\u00eds, est\u00e1 consciente de que o livre acesso a espa\u00e7os at\u00e9 h\u00e1 pouco inacess\u00edveis para ind\u00edgenas como ele pode ser usado contra a luta secular de seus parentes.<\/p>\n<p>\u201cO fato de estarmos na literatura, na academia, na pol\u00edtica, em v\u00e1rios lugares, pode gerar a autoilus\u00e3o de acharmos que estamos fazendo uma grande coisa quando, na verdade, s\u00f3 estamos ajudando a, de certa forma, alimentar o sistema econ\u00f4mico que rejeitamos\u201d, pondera Daniel.<\/p>\n<p>Convidado a imaginar o futuro dos povos origin\u00e1rios para uma<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/tags\/entrevistas-dia-dos-povos-indigenas-2024\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> s\u00e9rie de entrevistas<\/a> com intelectuais, lideran\u00e7as e ativistas ind\u00edgenas que a <strong>Ag\u00eancia Brasil <\/strong>publica esta semana, por ocasi\u00e3o do Dia dos Povos Ind\u00edgenas, na sexta-feira (19), Daniel critica a fixa\u00e7\u00e3o da sociedade n\u00e3o ind\u00edgena com o futuro.<\/p>\n<p>\u201cEsse olhar para o futuro aliena as pessoas para a necessidade mais imediata de construirmos nossa exist\u00eancia no presente. \u00c9 uma vis\u00e3o que educa as pessoas para o ego\u00edsmo\u201d, argumenta, afirmando que, tradicionalmente, os povos ind\u00edgenas concebem o tempo de forma diferente, com foco no passado e no presente, onde buscam respostas para seguir resistindo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios e de seus modos de ser.<\/p>\n<p>\u201cO tempo \u00e9 circular, como a natureza. Ele alimenta a si mesmo, desdobrando-se e se projetando adiante. A hist\u00f3ria se repete. Neste momento, est\u00e1 se reproduzindo de forma muito dura, muito cruel, e n\u00e3o s\u00f3 para os povos ind\u00edgenas\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Nascido em Bel\u00e9m (PA), em 1964, Daniel \u00e9 formado em Filosofia e doutor em Educa\u00e7\u00e3o, pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 considerado um dos grandes divulgadores da cultura ind\u00edgena. A maior parte de sua extensa obra \u00e9 destinada a crian\u00e7as e adolescentes. Em 2017, ganhou um Jabuti, o mais tradicional pr\u00eamio liter\u00e1rio do pa\u00eds, na categoria Juvenil, por seu livro<em> Vozes Ancestrais &#8211; em 2004<\/em>, j\u00e1 tinha recebido men\u00e7\u00e3o honrosa na mesma premia\u00e7\u00e3o, por <em>Coisas de \u00cdndio &#8211; Vers\u00e3o Infantil<\/em>. \u201cMinha literatura \u00e9 uma esp\u00e9cie de choro para sensibilizar adultos\u201d.<\/p>\n<p>Leia, a seguir, trechos da entrevista que Daniel Munduruku concedeu um dia ap\u00f3s retornar de viagem \u00e0 It\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0Em suas palestras, entrevistas e livros, o senhor destaca o fato de que os munduruku\u00a0e outras etnias ind\u00edgenas concebem o tempo de outra maneira, pensando o futuro de forma diversa daquela com a qual o pensamento ocidental n\u00e3o ind\u00edgena est\u00e1 habituado. O senhor pode comentar um pouco mais sobre isso?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong> Acho que posso generalizar sem medo de ser injusto. Em geral, os povos ind\u00edgenas t\u00eam uma concep\u00e7\u00e3o de que o tempo \u00e9 circular, como os ciclos da natureza. Eles n\u00e3o veem o tempo como algo linear, mas sim como algo que alimenta a si mesmo, desdobrando-se e se projetando adiante. O passado diz respeito a quem somos, de onde viemos, e o presente \u00e9 onde vivenciamos o resultado disso tudo. Com isto, esses povos constru\u00edram uma vis\u00e3o de mundo que, originalmente, n\u00e3o \u00e9 baseada no tempo do rel\u00f3gio, da produ\u00e7\u00e3o, do ac\u00famulo de riquezas materiais. Essa \u00e9 a vis\u00e3o resultante da concep\u00e7\u00e3o linear de tempo, que tem a ver com a certeza de que existe algo al\u00e9m do presente, ou seja, o futuro. Por essa \u00f3tica linear, no futuro, as pessoas ser\u00e3o mais felizes. Assim nascem as grandes hist\u00f3rias ocidentais sobre uma busca por algo muito importante: do santo graal a uma vida ap\u00f3s esta vida. Esse olhar para o futuro aliena as pessoas para a necessidade mais imediata de construirmos nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia no presente. \u00c9 uma vis\u00e3o que educa as pessoas para o ego\u00edsmo, para a disputa, para a conquista e a coloniza\u00e7\u00e3o do outro. Toda a pedagogia ocidental est\u00e1 fundamentada na c\u00e9lebre pergunta \u201co que voc\u00ea vai ser quando crescer?&#8217;. Nas comunidades ind\u00edgenas tradicionais, n\u00e3o se pergunta a uma crian\u00e7a o que ela vai ser quando crescer. Existe a compreens\u00e3o de que ela j\u00e1 \u00e9 aquilo que s\u00f3 lhe \u00e9 poss\u00edvel ser no agora. Cabe \u00e0 comunidade e\u00a0aos adultos\u00a0oferecerem\u00a0as condi\u00e7\u00f5es para que ela seja plenamente crian\u00e7a, cres\u00e7a, se torne um jovem equilibrado e, por fim, um velho consciente do seu papel no mundo. Isso \u00e9 ligar seu ser presente ao futuro, estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o de circularidade e educando para o coletivo.<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?w=696&#038;ssl=1\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Mas, hoje, os pr\u00f3prios ind\u00edgenas demandam que pensemos no futuro, reivindicando pol\u00edticas p\u00fablicas que, necessariamente, precisam ter metas e avalia\u00e7\u00e3o de resultados. N\u00e3o \u00e9 importante pensar o futuro como forma de responder aos problemas presentes?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0O que os ind\u00edgenas querem \u00e9 viver uma vida longa. Para isso, precisamos das condi\u00e7\u00f5es adequadas. E uma condi\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o viver em constante disputa uns com os outros. Ao disputarmos, a gente destr\u00f3i, domina, escraviza, mata. E nem todos conseguem ser felizes desta maneira. Da\u00ed a cr\u00edtica a esse modo de ver o futuro, que resulta, como disse, em um olhar que aliena e educa para o ego\u00edsmo. Para resolver os problemas presentes dos povos ind\u00edgenas \u2013 problemas que se desdobram a partir do passado \u2013, teriam que demarcar todos os territ\u00f3rios e dar aos ind\u00edgenas autonomia para decidir o que fazer com as terras homologadas. Caberia aos ind\u00edgenas resolver o melhor caminho a seguir. Repito: n\u00e3o se trata apenas de modos de vida. Trata-se de como a economia governa o mundo. Embora exista o conceito de economia circular, a economia que efetivamente governa o mundo \u00e9 linear. Seria necess\u00e1rio e urgente dar aos ind\u00edgenas a oportunidade de decidirem como fazer a jun\u00e7\u00e3o entre a economia circular ind\u00edgena e a economia linear.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0Feitas essas considera\u00e7\u00f5es, como o senhor imagina o futuro dos povos ind\u00edgenas? O senhor concorda com a tese de que o futuro \u00e9 ancestral ou n\u00e3o haver\u00e1 futuro?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong> Gosto da ideia de o futuro ser ancestral. Seria a comprova\u00e7\u00e3o de que o que est\u00e1 por acontecer j\u00e1 aconteceu e de que o tempo \u00e9 circular. De que a hist\u00f3ria se repete e que, neste momento, ela est\u00e1 reproduzindo um momento muito duro, muito cruel, n\u00e3o s\u00f3 para os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0Duro e contradit\u00f3rio, n\u00e3o? Ao mesmo tempo em que os territ\u00f3rios ind\u00edgenas s\u00e3o alvo da cobi\u00e7a de garimpeiros, madeireiros e da expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas e que testemunhamos crises humanit\u00e1rias como as que atingem os yanomami, na Amaz\u00f4nia, e os guarani e kaiow\u00e1, em\u00a0Mato Grosso do Sul, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena segue crescendo e h\u00e1 cada vez mais ind\u00edgenas ocupando espa\u00e7os at\u00e9 h\u00e1 pouco inacess\u00edveis.<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0Mas a contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nossa. \u00c9 do sistema que olha e sempre olhou para os povos ind\u00edgenas como um problema. H\u00e1 milhares de anos, n\u00f3s, ind\u00edgenas, temos constru\u00eddo respostas para parte dos graves problemas que a humanidade est\u00e1 enfrentando. Existem, no Brasil, 300 povos ind\u00edgenas lutando bravamente para se manterem vivos. O que envolve tamb\u00e9m a luta pela demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios. \u00d3bvio que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0O senhor acaba de retornar da It\u00e1lia, onde participou da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha. A ministra dos Povos Ind\u00edgenas, Sonia Guajajara, acaba de retornar dos Estados Unidos, onde, entre outras coisas, participou de um evento em Harvard. O Ailton Krenak tornou-se, na semana passada, o primeiro ind\u00edgena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Pela primeira vez, a Funai \u00e9 comandada por uma ind\u00edgena, a advogada Jo\u00eania Wapichana. H\u00e1 cada vez mais escritores ind\u00edgenas, alguns com relativo sucesso comercial. A sociedade est\u00e1 ansiosa por conhecer o que o senhor acaba de chamar de \u201crespostas ind\u00edgenas para parte dos graves problemas que a humanidade enfrenta\u201d?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0Eu diria que est\u00e3o tentando impingir na gente a obriga\u00e7\u00e3o de dar respostas, de dar solu\u00e7\u00e3o \u00e0 crise que o pr\u00f3prio homem branco gerou. Claro que os ind\u00edgenas est\u00e3o buscando se fazer cada vez mais presentes, pois n\u00e3o h\u00e1 outro caminho. Ou a gente se apresenta como parte dessa sociedade \u00e0 beira da destrui\u00e7\u00e3o e da loucura, ou a gente \u00e9 engolido por ela sem ter nem sequer direito a falar. A quest\u00e3o \u00e9 que, \u00e0s vezes, o que pode parecer uma grande coisa pode ser um engodo. O fato de estarmos na literatura, na academia, na pol\u00edtica, em v\u00e1rios lugares pode gerar a autoilus\u00e3o de acharmos que estamos fazendo uma grande coisa quando, na verdade, s\u00f3 estamos ajudando a, de certa forma, alimentar o sistema econ\u00f4mico que rejeitamos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0O senhor acabou n\u00e3o completando a resposta sobre quais s\u00e3o, a seu ver, as possibilidades de futuro para os povos ind\u00edgenas?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0Como eu disse, as solu\u00e7\u00f5es para os problemas n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis. Existe futuro para os povos ind\u00edgenas neste sistema em que vivemos? Um futuro em que possamos manter parte de nossas tradi\u00e7\u00f5es, incluindo a op\u00e7\u00e3o de seguir vivendo na floresta se assim quisermos? N\u00e3o sei. Temo que isso acabe logo. Porque o sistema, guloso como s\u00f3 ele, vai querer devorar tudo, como vem acontecendo h\u00e1 s\u00e9culos. H\u00e1 524 anos os ind\u00edgenas travam uma guerra contra esse sistema, preservando seus territ\u00f3rios. N\u00e3o sou um bom profeta, mas acho que o que se desenha para n\u00f3s \u00e9, pouco a pouco, irmos cada vez mais para os centros urbanos sob risco de morrermos em confrontos.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0O senhor, portanto, \u00e9 pessimista quanto ao futuro dos povos ind\u00edgenas?<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0N\u00e3o digo pessimista. \u00c9 que a esperan\u00e7a \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. E uma fic\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de embarcarmos na ideia de futuro sobre a qual j\u00e1 falamos. De buscar, no futuro, respostas para os problemas presentes, quando a realidade \u00e9 muito mais cruel e o inimigo, muito mais forte do que a gente imagina. \u00c0s vezes, o inimigo vai transformando nossa esperan\u00e7a em um produto com o qual acaba nos iludindo. Se admitir isso \u00e9 ser pessimista, que seja, tudo bem.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Por outro lado, boa parte de sua obra liter\u00e1ria \u00e9 destinada a crian\u00e7as e adolescentes, o que comporta boa dose de otimismo.<br \/><strong>Daniel Munduruku:<\/strong>\u00a0Sim, h\u00e1 algo de utopia nisso. Uso minha escrita para crian\u00e7as como forma de atingir os adultos. Imagino que um adulto vai ler um livro antes de oferec\u00ea-lo a um filho e procuro atingir o adulto por meio de temas universais. \u00c0s vezes, a gente precisa usar o choro das crian\u00e7as para sensibilizar os adultos, que s\u00e3o, de fato, quem precisa de remendo. Minha literatura \u00e9 isso: uma esp\u00e9cie de choro para sensibilizar adultos.<\/p>\n<p><em>*A primeira entrevistada para esta <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/tags\/entrevistas-dia-dos-povos-indigenas-2024\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00e9rie especial <\/a>que a <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong> produziu para o Dia dos Povos Ind\u00edgenas foi a <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-04\/vamos-continuar-existindo-diz-demografa-sobre-futuro-indigena\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dem\u00f3grafa Rosa Colman<\/a>, primeira e, possivelmente, \u00fanica especialista em estudos populacionais a se autodeclarar ind\u00edgena no pa\u00eds. Nos pr\u00f3ximos dias ser\u00e3o publicadas as entrevistas com a escritora Eliane Potiguara e com a ministra Sonia Guajajara.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2024-04\/modo-nao-indigena-de-pensar-futuro-e-alienante-diz-daniel-munduruku\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Brasil<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Munduruku n\u00e3o se ilude. 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