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Risco de morte por febre amarela pode ser identificado mais cedo

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Rio de Janeiro - Rio Imagem abre posto de vacinação contra a febre amarela, no centro do Rio, com funcionamento das 7 às 22h. (Tomaz Silva/Agência Brasil)

√Č o que revela pesquisa feita pela Universidade de S√£o Paulo

Pesquisa desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Emílio Ribas identificou quatro fatores que indicam risco de morte em pacientes com febre amarela.

Idade avançada, contagem de neutrófilos elevados (células sanguíneas que fazem parte do sistema imune inato), aumento da enzima hepática AST e maior carga viral são os marcadores que apontam o risco de uma evolução grave da doença. O estudo destaca que, de cada 100 pessoas que são picadas por mosquitos infectados com o vírus da febre amarela, 10% desenvolverão sintomas da doença, e 30% podem morrer.

‚ÄúO que mais nos deixava perplexos √© que a maioria dos pacientes chegava bem, apenas se queixando de mal-estar, dor pelo corpo e febre, e, dias depois, alguns deles morriam. √Č uma doen√ßa de evolu√ß√£o muito r√°pida. Era um desafio determinar, na entrada do paciente, qual seria aquele que evoluiria muito mal da doen√ßa e qual seria aquele que teria uma evolu√ß√£o mais favor√°vel. Foi isso que a gente abordou nesse trabalho‚ÄĚ, explicou Esper Georges Kall√°s, professor do Departamento de Mol√©stias Infecciosas e Parasit√°rias da Faculdade de Medicina da USP.

Outros 19 pesquisadores, apoiados pela Funda√ß√£o de Amparo √† Pesquisa do Estado de S√£o Paulo (Fapesp), assinam o estudo, publicado na revista cient√≠fica Lancet.

Kall√°s aponta que amostras para an√°lises foram coletadas em pacientes durante o surto de febre amarela em S√£o Paulo no ano passado.

De acordo com a Secretaria Estadual de Sa√ļde, em 2019, at√© 3 de junho, foram registrados 66 casos aut√≥ctones de febre amarela silvestre no estado e 12 deles evolu√≠ram para morte.

Em 2018, foram confirmados 504 casos aut√≥ctones em v√°rias regi√Ķes do estado, dos quais 176 resultaram em morte. Tamb√©m houve 261 epizootias (morte ou adoecimento de primatas n√£o humanos).

Entre 11 de janeiro e 10 de maio de 2018, 118 pacientes com suspeita de febre amarela foram internados no Hospital das Clínicas e outros 113 no Emílio Ribas.

Diagnóstico

Após a confirmação do diagnóstico, o estudo se concentrou em 76 pacientes (68 homens e 8 mulheres). Dos 76 pacientes, 27 (36%) morreram durante o período de 60 dias após a internação hospitalar.

Onze pacientes com contagem de neutrófilos igual ou superior a 4.000 células/ml e carga viral igual ou superior a 5.1 log10 cópias/ml (ou seja, aproximadamente 125 mil cópias do vírus por mililitro de sangue) morreram, em comparação com três mortes entre os 27 pacientes com contagens de neutrófilos menor que 4.000 células/ml e cargas virais de menos de 5.1 log10 cópias/ml (menos de 125 mil cópias/ml).

Os pesquisadores puderam constatar também que a coloração amarelada na pele dos doentes, característica conhecida da doença, não é um marcador de severidade no momento da entrada do paciente no hospital.

‚ÄúA colora√ß√£o amarelada, consequ√™ncia da destrui√ß√£o das c√©lulas do f√≠gado pelo v√≠rus, s√≥ aparece em casos em piora avan√ßada. Em nosso estudo, nenhum dos pacientes que veio a √≥bito chegou no hospital ostentando colora√ß√£o amarelada‚ÄĚ, disse Kall√°s.

Para identificar três dos marcadores, excluindo a idade, são necessários exames em laboratório. De acordo com o professor, o que mede a quantidade de neutrófilos e o aumento da enzina hepática são exames simples com resultado em, no máximo, uma hora.

‚ÄúO mais dif√≠cil √© a carga viral do v√≠rus da febre amarela que √© um ensaio experimental. Ele foi desenvolvido para esse estudo, e n√£o √© popularizado. N√£o est√° dispon√≠vel em laborat√≥rios de an√°lise cl√≠nicas habitualmente‚ÄĚ, explicou. Ele avalia que a disponibilidade do exame auxiliaria n√£o s√≥ na identifica√ß√£o do marcador, mas no pr√≥prio diagn√≥stico.

Em casos de novos surtos de febre amarela, os resultados encontrados no estudo permitem agora que os m√©dicos fa√ßam uma triagem de pacientes nos momentos de entrada nos servi√ßos de sa√ļde, identificando aqueles que potencialmente podem evoluir para casos mais severos. Assim, √© poss√≠vel antecipar interna√ß√Ķes nas unidades de terapia intensiva, aumentando as chances de sobreviv√™ncia.

Massa crítica

‚ÄúEstamos criando uma massa cr√≠tica de informa√ß√Ķes que vai ajudar o m√©dico na hora que avaliar o paciente, inicialmente quem vai melhor, quem vai pior e otimizar a disponibiliza√ß√£o de recursos no hospital. Evidente que auxilia a melhorar a assist√™ncia a sa√ļde dessas pessoas‚ÄĚ, disse o pesquisador.

Outra consequência da descoberta é a hipótese de que remédios antivirais podem auxiliar no tratamento da febre amarela.

‚ÄúPela primeira vez √© descrita a associa√ß√£o da quantidade de v√≠rus [carga viral] com doen√ßa pior‚ÄĚ, disse Kall√°s.

Segundo o pesquisador, outros projetos j√° avaliam medica√ß√Ķes que poderiam ser usadas neste caso.

‚ÄúSe chega um paciente com febre amarela bem no come√ßo, ser√° que se a gente der um rem√©dio antiviral n√£o corta a multiplica√ß√£o do v√≠rus e melhora o progn√≥stico dessa pessoa? J√° que a quantidade de v√≠rus √© um fator, isso tem o potencial de mudar a hist√≥ria de sobreviv√™ncia na febre amarela se a gente achar um rem√©dio que for eficaz‚ÄĚ, finalizou.

Agência Brasil